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Saúde mental em situações de calamidade pública

Artigo do presidente da ABP traz informações básicas para ajudar as pessoas a ajudarem no momento tão difícil que estamos vivendo atualmente.

Foto do autor do artigo Dr. Antônio Geraldo da Silva, médico psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e diretor clínico do IPAGE — Instituto de Psiquiatria.

Sabemos que desastres naturais, epidemias, pandemias e outras situações de calamidade pública podem ocorrer a qualquer momento e em qualquer lugar do mundo.

Temos visto esses eventos ocorrerem com frequência por conta das mudanças climáticas, guerras, etc.

Em momentos de crise, essas catástrofes causam não apenas danos físicos e materiais, mas também podem causar traumas e gerar um impacto profundo na saúde mental das comunidades afetadas.

Uma das questões mais críticas relacionadas aos efeitos desses eventos é o adoecimento mental das pessoas, principalmente para pacientes que já possuem um quadro psiquiátrico ou os que têm predisposição genética para desenvolver algum.

Eventos como esses desencadeiam uma série de reações emocionais, psíquicas e psicológicas nas pessoas afetadas.

Os diversos tipos de medo, de transtornos de ansiedade, o estresse e o sentimento de perda são apenas algumas das emoções intensas que surgem.

Além disso, a incerteza em relação ao futuro e a sensação de falta de esperança podem agravar ainda mais o estado emocional das pessoas.

No primeiro momento, o mais importante é salvar vidas e manter as pessoas vivas.

Retirar as pessoas de situações de risco e encaminhar para um lugar seguro.

Porém, os sobreviventes podem apresentar muitos sintomas físicos, emocionais e cognitivos e então, é necessário dar atenção e cuidar dessas pessoas.

Elas podem não ser capazes de pensar e agir racionalmente durante o desastre.

É recomendável que o atendimento nestes casos seja focado em mitigar sinais e sintomas agudos, restaurar a funcionalidade e estabelecer vínculos e acordos sobre os objetivos de atendimento para estabilizar os pacientes e interromper o aumento do sofrimento.

A intervenção pode minimizar o impacto imediato e a longo prazo desses eventos na saúde mental das comunidades.

O trauma causado por testemunhar a destruição, perder entes queridos ou enfrentar a ameaça iminente à própria vida e dos entes queridos, pode agravar ainda mais quadros psiquiátricos já existentes ou levar ao desenvolvimento de transtornos mentais em pessoas que já tenham predisposição.

Além disso, indivíduos que já possuem um transtorno mental podem encontrar dificuldades para acessar medicamentos específicos.

Quadros psiquiátricos, como transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade e depressão, são os mais comuns nessas situações.

A colaboração entre diferentes setores, incluindo serviços de saúde mental, serviços de emergência e autoridades locais, é fundamental.

Isso permite uma abordagem integrada e coordenada para lidar com as necessidades complexas da população afetada.

Uma comunicação clara e transparente é essencial para fornecer informações precisas e atualizadas sobre a situação da calamidade e os recursos disponíveis para apoio psiquiátrico.

Isso ajuda a reduzir o medo e a ansiedade e promove a confiança na resposta à emergência.

Um espaço reservado para atendimento no próprio local onde a pessoa está abrigada pode ser um bom plano em uma calamidade pública.

Outra medida que também pode ser de grande ajuda é treinar equipes que possam auxiliar na prestação de cuidados imediatos e na estabilização de indivíduos em crise antes de encaminhá-los para atendimento especializado.

Durante uma crise aguda, os hospitais podem enfrentar uma série de desafios, incluindo problemas estruturais, a diminuição do número de funcionários e o aumento do número de pacientes.

Isso pode temporariamente comprometer a capacidade de atendimento, gerando um risco de sobrecarga do sistema de saúde.

É igualmente importante pensar na saúde mental dos trabalhadores envolvidos na resposta a emergências, como profissionais de saúde, socorristas, bombeiros, forças militares, voluntários e a própria imprensa e oferecer apoio psicológico para eles.

É imperativo reconhecer que o impacto psíquico e psicológico desses eventos pode ser profundo e de longo prazo.

Portanto, é necessário pensar em estratégias abrangentes para fornecer cuidados gerais de saúde e apoio psiquiátrico às comunidades em situações de risco e garantir que a população afetada tenha acesso a serviços para cuidar da saúde mental, tanto durante quanto após a crise.

Importante lembrar que tais cuidados devem ser a curto, médio e longo prazo.

E é comum essas comunidades serem esquecidas e até mesmo abandonadas no médio e longo prazo.

Vale também mencionar que não apenas a comunidade local é atingida, mas a população inteira no país é atingida de alguma forma.

Sobre o autor

Dr. Antônio Geraldo da Silva é médico psiquiatra, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e Diretor Clínico do IPAGE — Instituto de Psiquiatria Antônio Geraldo.

É também coordenador nacional da Campanha Setembro Amarelo, da Campanha ABP/CFM Contra o Bullying e o Cyberbullying e da Campanha de Combate à Psicofobia.

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