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Os benefícios do teatro no desenvolvimento infantojuvenil

Luciana Saul, diretora teatral do Teatro da Praça, revela como as artes cênicas surgem como transformador social da vida de jovens e crianças e muito mais.

Foto da entrevistada Luciana Saul, diretora teatral do Teatro da Praça.

A Escola Teatro da Praça é um sonho que se tornou realidade no Parque Mandaqui em São Paulo.

Este espaço dedicado à criação artística, pesquisa contínua e construção de conhecimento se baseia nos princípios do educador Paulo Freire.

O Teatro da Praça foca na formação contínua, não só de artistas, mas de cidadãos.

A missão desta escola de teatro é desenvolver a presença cênica do artista-criador e fortalecer seu papel como cidadão no mundo.

Os alunos trazem suas experiências, desejos e medos, cada um com seus próprios saberes.

É a partir dessas vivências individuais que os espetáculos teatrais são construídos.

Participativamente, eles escrevem a dramaturgia, criam cenários e figurinos, e atuam.

Todos os personagens criados têm um papel significativo na narrativa!

Mas, afinal, quais os benefícios das artes cênicas para a saúde mental/emocional e desenvolvimento social das crianças e dos adolescentes?

Essas e outras questões foram discutidas com Luciana Saul, diretora teatral da escola, mestre em artes cênicas formada pelo ECA/USP, psicóloga clínica formada pela IP/USP e dramaturga.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro é um prazer recebê-la no Jornal Folk, e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Como diretora teatral e arte educadora, qual você acredita ser o papel fundamental do teatro no desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes?

Luciana Saul: Agradeço ao Jornal Folk pela oportunidade de compartilhar nosso trabalho.

Acredito que o teatro tem um potencial terapêutico extremamente transformador.

Na metodologia original que temos desenvolvido aqui na escola, os adolescentes trazem questões significativas de suas vidas para serem elaboradas por meio da obra de arte.

Trazem de forma consciente ou inconsciente, situações ou limites que os afligem, causam ansiedade e/ou provocam medo.

Cada um escolhe o seu personagem: o desejo de ‘ser alguém’ vem de algum lugar profundo.

Esse desejo deve ser fomentado, estimulado.

Nesse contexto de criação participativa eu sou alguém em relação com meu parceiro, ou seja, eu posso construir novos conhecimentos mediatizados pelas relações entre sujeitos.

E nesse sentido eu aprendo a me colocar e, ao mesmo tempo, ser flexível, negociar algumas alternativas e estratégias com meu parceiro, ou seja, aprendo a difícil arte do diálogo!

Além disso, o processo teatral autoral, como desenvolvemos aqui, estimula o protagonismo.

Cada personagem é único e fundamental na trama da história.

Não há “stand-by”, não há possibilidade de substituição de atores na montagem.

Isso desenvolve o senso de responsabilidade com o grupo e a satisfação de cada um de se sentir importante, pertencente e necessário àquele trabalho.

Victor Hugo Cavalcante: Poderia compartilhar alguns exemplos de como o envolvimento em atividades teatrais tem impactado positivamente a vida de jovens com os quais você trabalhou no Teatro da Praça?

Já recebemos crianças que não conseguiam nem dizer seu nome, muitos chegam com “rótulos” extremamente negativos, como fardos pesados de carregar: esse é “o tímido”; esse é “o desatento”; esse é “o estranho”.

Nesses casos, primeiramente trabalhamos no sentido de dissolver esses estigmas para que a criança ou adolescente consiga se expressar e possa construir a sua identidade, com liberdade.

No trabalho com o teatro, na maneira como desenvolvemos aqui, a timidez passa a fazer parte do passado.

A timidez é algo terrível, a pessoa quer se expressar, sabe que pode e não consegue, essa sensação frustra, machuca muito.

Felizmente temos sempre depoimentos de crianças, nos debates que seguem os espetáculos, que gostam de contar num discurso, cheio de desenvoltura, molhado de deliciosas gargalhadas:

Aluno: “Eu era tímido, sério gente!”;

Público: “Você? Não acredito!”;

Aluno: “Eu juro!!! Não é verdade, Prô?”.

Algumas crianças também são trazidas com diagnósticos de TDAH e encaminhadas por psicólogos ou pela escola para desenvolver concentração, atenção, disciplina necessárias a um processo de criação artística.

Temos casos de alunos que chegaram dizendo que não sabiam ou não gostavam de escrever.

Muitos deles, hoje, desenvolvem produções textuais de uma qualidade indiscutível em termos dramatúrgicos e outros também se aventuram em poesias, e projetos de livros.

Nossos alunos dizem que aqui no Teatro da Praça “podem ser quem eles são”.

É porque trabalhamos no sentido de promover um espaço acolhedor, sem discriminação, onde as diferenças são as verdadeiras pérolas para a criação do material artístico.

Victor Hugo Cavalcante: Como a psicologia, especialmente com sua especialização em aprendizagem escolar, influencia seu trabalho como diretora teatral e arte educadora?

A escola como está hoje tem castrado o direito de ser.

Trabalha na contramão da aprendizagem significativa, dos gostos, interesses, dos saberes de experiência feitos dos educandos.

Castra o direito da escrita, o direito de voz e aprisiona as mentes e os corpos dos educandos em carteiras apertadas por cinco horas diárias, pelo menos.

O aluno ou a aluna chega à escola e esta, frequentemente, não se preocupa em saber quem são essas pessoas, que bagagem eles trazem, do que precisam, de onde vem, como são suas famílias, quais são seus medos, quais são seus sonhos!

A educação nas escolas ainda é “bancária” como denunciou o educador Paulo Freire, ou seja, os educandos são vistos como receptáculos vazios dentro do qual se pode despejar o conteúdo.

Aqui no Teatro da Praça nos opomos radicalmente à “educação bancária”.

Buscamos resgatar o direito de voz, o direito à escrita e restabelecer a relação que deveria ser natural entre a linguagem oral e a escrita, rompida em forma de abismo, pela escola.

Buscamos resgatar a autonomia dos educandos, mostrando a eles que podem e devem ser sujeitos do conhecimento.

Fomentamos a curiosidade e a reflexão e principalmente escutamos os educandos, suas necessidades e por meio da leitura que fazem de seus contextos.

Victor Hugo Cavalcante: Que habilidades e competências as crianças e adolescentes desenvolvem ao participar de programas de teatro, e como essas habilidades podem beneficiar outras áreas de suas vidas, como o desempenho escolar e a interação social?

O trabalho com o teatro, na maneira como desenvolvemos aqui, ajuda as pessoas a se conhecerem melhor.

Instrumentaliza os participantes a educar os seus medos em situações de ansiedade, onde precisam se expor: apresentar um trabalho na escola, fazer uma palestra, dar aula, etc.

No teatro eles aprendem a lidar com esses temores e transformá-los em coragem e confiança para conseguirem se sair bem nessas situações.

Outro aspecto importante que gostaria de mencionar diz respeito à indispensável relação artista-cidadão.

Em todas as escolas tradicionais existem a disciplina de Orientação educacional, onde supostamente as crianças trabalham para não promoverem ações de bullying; as escolas também espalham plaquinhas com os dizeres “bullying é crime”.

Mas o que se constata, por vezes, no cotidiano escolar é justamente a prática diária de bullying, as “panelinhas”, o desrespeito, crianças isoladas, sem amigos, se cortando, entrando em depressão e, consequentemente, tendo seu desenvolvimento escolar e emocional extremamente dilacerado.

Isso mostra que essas práticas das escolas não estão atingindo seu objetivo.

Aqui no Teatro da Praça entendemos que “chamar um palestrante para falar sobre bullying para as crianças ou fixar placas nas paredes” não funciona.

Convidamos os alunos à reflexão, a fim de falar COM eles, não falar PARA eles.

As reflexões reverberam para fóruns organizados pelos próprios alunos, jogos dramáticos e para temáticas dos próprios espetáculos.

Dessa forma nossos alunos constroem vínculos fortíssimos e duradouros de amizade, onde são desenvolvidos valores de empatia, solidariedade, respeito e ética.

Victor Hugo Cavalcante: Na sua opinião, quais são os principais desafios enfrentados por educadores e diretores teatrais ao trabalhar com jovens, e como você sugere superá-los?

Os educadores e diretores teatrais que trabalham com jovens tem uma tarefa dificílima que exige muita responsabilidade e coerência.

Aqui no Teatro da Praça os professores possuem autonomia nos processos artístico-pedagógicos.

O texto de cada espetáculo é autoral.

Nesse sentido, o professor precisa coordenar o trabalho, sempre ficando muito atento às individualidades no grupo.

As professoras precisam buscar fazer uma leitura diária do que é dito e do que não é dito pelos participantes e o que fica implícito em suas ações; precisam oferecer um espectro de estratégias para que cada participante se sinta contemplado em seus gostos e seus anseios e, ao mesmo tempo, desafiado a construir novos conhecimentos com os colegas.

Junto ao ensino artístico o professor deve trabalhar na e com a formação ética dos educandos e nesse sentido deve problematizar os temas que eles trazem a fim de provocar a reflexão.

Aqui as professoras têm o gosto pela pesquisa artística, o que faz com que os espetáculos se desenvolvam com uma qualidade estética de excelência.

Tudo isso exige um desafio diário de competência, estudo, pesquisa continuada e um encanto amoroso pelo trabalho.

Victor Hugo Cavalcante: Como você enxerga o futuro do teatro educacional no Brasil e quais iniciativas você acredita serem essenciais para promover a integração do teatro nas escolas e comunidades?

O teatro ainda é muito desvalorizado.

A profissão de ator/atriz, ainda é muito desconhecida da maior parte das pessoas.

Ainda hoje, no “senso comum” um artista é considerado uma pessoa histriônica que trabalha com entretenimento e diversão, sem nenhuma formação.

Também se desconhece ser preciso estudar muito para ser ator.

Que existe faculdade de Artes cênicas, Mestrado, Doutorado.

Desconhece-se que existem pesquisadores-prático-teóricos do Teatro com relevância histórica.

Outra preocupação das famílias é o sustento financeiro.

Se o filho fala que quer ser ator, a família entra em pânico e proíbe, ou sugere um “plano B”, o qual seja, cursar também uma faculdade em outra área.

A orientação deveria ser no sentido de aprofundar os estudos, permanentemente, nas Artes Cênicas, e nessa área abrir um espectro de possibilidades profissionais: professor de teatro em escolas, professor universitário de Artes Cênicas, dramaturgo, pesquisador, diretor teatral, etc.

A matéria de Artes é sempre preterida dos currículos das escolas.

Acredito que temos muito trabalho para uma mudança curricular que possibilite outra maneira de ver a Arte na escola e em nossa sociedade; devemos ter uma esperança ativa e não podemos nos acomodar.

Teatro é um dos instrumentos mais potentes de denúncia do que não está bem e de anúncio de novas possibilidades que podem transformar os indivíduos, comunidade e sociedade.

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