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Dia Mundial do Teatro: História, presente e futuro do Teatro

Nesta matéria mergulhamos com profissionais da área teatral nas profundezas da história, impacto atual e futuro em constante evolução do teatro.

Fotos ilustrativas de duas máscaras de teatro.

“O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia”.

Esta frase é atribuída ao ator francês Jean Barrault e reflete sua visão sobre o poder do teatro como uma forma de arte que pode curar e transformar.

Você sabia que esta importante arte também tem seu dia comemorativo?

O Dia Mundial do Teatro é comemorado em 27 de março.

Mas, afinal, como surgiu o teatro no mundo, qual a sua importância para os momentos atuais e o que podemos aguardar dessa arte para o futuro?

Ao continuar o texto abaixo, prepara-se para mergulhar nas profundezas da história multifacetada dessa arte, refletir sobre seu impacto no presente e especular sobre o seu futuro em constante evolução.

A história mundial do teatro

teatro grego com o vulcão Monte Etna ao fundo, em Taormina, Sicília, Itália – Crédito: Getty Images

A história do teatro remete aos tempos da Grécia Antiga, em torno do século VI a.C., onde se cultuavam vários deuses.

O teatro surge como consequências da realização de rituais em louvor ao deus mitológico Dionísio, divindade relacionada à fertilidade, vinho e diversão.

As celebrações a Dionísio, que duravam vários dias e ocorriam na época da colheita, como forma de agradecimento pelo alimento e pelo vinho, eram intensas e havia uma espécie de procissão, que levava o nome de “ditirambo”.

Depois surgiu o “coro”, um conjunto de pessoas que cantava e dançava homenageando Dionísio.

Até que aparece Téspis, uma figura, que segundo consta, foi de grande importância para o surgimento do teatro ocidental.

Esse homem participava de um desses rituais quando, em dado momento, resolveu vestir uma máscara e dizer que ele era o próprio deus Dionísio, iniciando assim um diálogo com o “coro”, sua ousadia fez com que o homem fosse reconhecido como o “criador do teatro” e primeiro ator e produtor teatral.

Mais tarde, essa linguagem artística foi evoluindo e influenciou fortemente o teatro romano e outras culturas.

O passado do teatro no Brasil

Ilustração de Vista histórica de Ouro Preto, Brasil, gravura em madeira, publicada em 1899 – Crédito: Getty Images

Ao chegar em solo brasileiro e se deparar com a população indígena, os portugueses começaram a elaborar estratégias de dominação do lugar e, sobretudo, do povo nativo.

Assim, visando converter a população indígena ao cristianismo, os religiosos utilizaram o teatro como instrumento de doutrinação, no que se chamou de teatro de catequese, que facilitava a apresentação das ideias cristãs, trazidas pelos portugueses.

O professor/diretor de teatro e jornalista Sílvio Tadeu analisa a influência inicial do teatro de catequese praticado pelos religiosos portugueses e sua contribuição para a evolução e desenvolvimento do teatro no Brasil ao longo dos séculos:

“O teatro praticado pelos jesuítas, cumpriu a sua função maior, que era comunicar visando a transformação humana. Há de se considerar que o teatro praticado pelos seus criadores, os gregos, já tinha essa finalidade, educar, converter, ensinar a moral, com premiação ao dramaturgo que mais atingisse esse objetivo com a sua dramaturgia. Mas claro o aspecto colonial no qual o teatro foi usado com o indígena é que é passível de discussão”.

Assim, o teatro de catequese não apenas introduziu elementos dramáticos no contexto brasileiro, mas também deixou um (triste?!) legado na história cultural do país, conforme narra Sílvio:

“O resultado está aí, genocídio das tribos até hoje e como artistas, sentimos com pesar, que a arte foi usada para essa finalidade: a aproximação com os indígenas para dominá-los. Talvez aí tivemos o primeiro teatro popular brasileiro, ou seja, feito para o povo e com o povo, algo que Bertolt Brecht traria em seu conceito muitos séculos mais tarde. A inclusão da dança e do canto, presentes até hoje em nossas melhores montagens, foi resultado de observar o gosto do indígena por essas expressões. Os autos anchietanos, foram elaborados normalmente para atender a festejos ou para receber algum ilustre visitante (autos de recebimentos) ou relíquias insignes, ou imagens valiosas de santos”.

Ele ainda complementa que “motivados a formarem o ‘homem civilizado’ por meio da propagação da fé católica, os jesuítas investiram em diferentes estratégias educativas cujo objetivo era transmitir os valores cristãos e apresentar uma ‘nova forma de vida’ aos povos indígenas. Para tanto, estimularam o ensino das letras, os cânticos e os catecismos. O padre via nas tribos indígenas pecados inconcebíveis aos preceitos cristãos. Canibalismo, poligamia, nudismo, crenças e espírito guerreiro eram temas recorrentes nas peças e estavam associados aos ‘maus hábitos’ que precisavam ser extirpados. Cabe reiterar que o dramaturgo converteu o indígena aproveitando-se dos recursos culturais e simbólicos do universo ameríndio, sem afastá-lo completamente de suas práticas originais. É importante destacar que, ainda que latentemente, havia uma resistência diante da ordem que se estabelecia. Resistência que se mostrava presente nos próprios relatos dos jesuítas, sempre que os padres se queixavam do retorno dos indígenas aos seus ‘maus’ costumes. O projeto desenvolvido pelos padres não foi facilmente aceito pelos nativos, haja vista que esses povos possuíam tradições e memória consolidadas, e a necessidade de desmontar essa construção simbólica e material consistiu em um grande desafio para a Companhia de Jesus. Anos mais tarde o teatro em terras brasileiras deu um novo salto, com a chegada da família real e a vinda de companhias de teatro europeias, para distrair a realeza, com temas bastante distantes da realidade popular. E assim caminhou o teatro, uma arte para alguns privilegiados, até que a revolução do teatro paulista, mais especificamente do Teatro de Arena e do Teatro Oficina, devolvesse o teatro brasileiro para o povo, com suas contestações, canto, dança e muitas vezes, nudez, num claro resgate da memória ancestral indígena. As consequências do teatro jesuíta são bem claras: controle de um povo através da representação do que seria certo. Esse método mais uma vez seria usado, com o poder da ditadura e seus censores, tão vigorosamente combatido pelo Teatro de Resistência dos anos 60 e 70”.

Mas, e quais os desafios que o teatro nacional enfrenta atualmente, principalmente, se considerarmos a pandemia que assolou o mundo em 2019?

O teatro brasileiro no presente: Desafios em tempos de pandemia

Audiência no teatro durante a pandemia de Covid-19 – Crédito: Getty Images

Como vimos, a influência inicial do teatro de catequese praticado pelos religiosos portugueses foi fundamental para estabelecer as bases da apresentação teatral no Brasil, influenciando sua trajetória e desenvolvimento ao longo dos séculos.

Mas, quando nos deparamos com o momento atual que vivemos, o que podemos esperar do teatro?

O professor/diretor de teatro e jornalista Sílvio Tadeu faz uma análise sobre as contribuições do teatro para a sociedade atual:

“Entre as contribuições do teatro para sociedade. Destaco com mais entusiasmo a empatia e capacidade de nos fazer perder o pré-conceito. Tive um diretor de teatro sensacional que dizia ser o teatro, mais importante primeiro para quem o pratica. Queiram os Deuses que um dia o teatro vire matéria obrigatória nas escolas. O colocar-se no lugar do outro é urgente na sociedade atual. Fazer um personagem, suas dores, medos e forças nos faz parar de olhar o próprio umbigo. A sociedade narcisista atual precisa fazer teatro urgente!!!”.

Em 2020 a pandemia de Covid-19 surgia no Brasil, e durante este tempo muitos locais tiveram que ser fechados, e com os teatros não foi diferente.

Por serem ambientes fechados e com pouca circulação de ar, além de gerarem aglomerações, esses locais de cultura foram os primeiros a serem fechados, no início da pandemia.

Quem nos dá opiniões sobre como foi o período da pandemia para o teatro nacional é Alexandre Battel, produtor de teatro do Grupo O Fi’los de Teatro:

“Naquele ano estávamos com a produção do espetáculo Amor para Obá para estrear em maio. Porém, fomos pegos, como todos, de surpresa como o fechamento de tudo, tivemos de parar com o espetáculo. Foi um tempo muito complicado, ficamos até outubro sem atividade alguma. Em novembro, com a ajuda da Lei Aldir Blanc, voltamos aos palcos com o espetáculo infantil O Cravo e a Rosa em confusão no jardim”.

Enquanto a diretora de teatro Esther Goes confirma o impacto da pandemia no teatro e nas práticas de produção teatral:

“A pandemia foi um corte brusco, inesperado e total no curso da atividade teatral e em todas as suas perspectivas. Atingiu o lugar mais vulnerável da atividade, aquilo que mais e melhor a caracteriza: o contato pessoal. Passamos a usar o virtual, tentando imitar o que sempre havíamos feito de fato: representar presencialmente, criar e envolver o espectador num ambiente que parece assumir vida própria, e cujo lugar de acontecer tem um nome, TEATRO, que em grego significa lugar onde se vê, que, portanto, supõe ir lá, querer e realizar o encontro. Desmontado o ato teatral, desmoronou de imediato tudo que o envolve, sendo preciso também criar uma maneira de produzir virtualmente, online, o fenômeno da catarse, da narrativa cênica, do jeito de contar uma história”.

Essa arte e seus trabalhadores precisaram então se reinventar, e, quem diria, o teatro agora ganhava um novo local, mais seguro a todos: O virtual!

Alexandre Battel, produtor teatral do Grupo O Fi’los de Teatro, responde sobre os principais desafios enfrentados ao produzir teatro virtualmente:

“Era engraçado assistir atores da mídia falando que era obrigação nossa, enquanto artistas, criar lives para distrair o público. Para eles foi fácil, pois tinham, em sua maioria, contratos fechados que permitiam seus salários em dia. No nosso caso, sem apoio financeiro de ninguém, tínhamos de fazer renda, então os que puderam foram desempenhar funções paralelas à arte para sobreviverem. É fácil colocar a culpa no outro quando você tem seu sustento garantido, mas nós, assim como inúmeros outros grupos independentes, sofremos muito”.

Já o ator Gustavo Parreira comentou sobre sua experiência de atuação em peças de teatro virtuais durante a pandemia:

“Teatro virtual é um desafio principalmente por conta da falta da presença física do público. Eu sempre prefiro o teatro presencial, mas tive que me adaptar como todos os artistas, o mais difícil durante a pandemia foi continuar fazendo arte em meio às preocupações inclusive com a própria saúde. Trabalhar com espaço reduzido (fazer da sua casa o palco) não foi uma tarefa fácil”.

E a Cia República Ativa de Teatro respondeu sobre como adaptou suas práticas de ensaio, produção e apresentação para o formato virtual durante a pandemia.

“Quando chegou a pandemia, estávamos nos preparando para a estreia de um espetáculo no Teatro Cacilda Becker (São Paulo). Uma semana antes dessa estreia foi decretado o fechamento dos teatros na cidade, e tudo parou na sequência. Nesse primeiro momento, também nos recolhemos e mantivemos contato apenas pela internet (ainda sem saber ao certo o que era possível fazer). Estávamos em pleno desenvolvimento de nosso projeto de fomento, e a própria Secretaria Municipal de Cultura não sabia o que orientar nessa situação. Depois de um tempo e muita negociação, adaptamos o projeto para o formato online, exibindo gravações dos espetáculos (que ocorreram em 2019). Fizemos também uma leitura dramática do espetáculo que iria estrear (preservando sua estreia para outro momento), e conseguimos reunir imagens, vídeos e depoimentos para produzir um vídeo documentário sobre o projeto. Tudo isso feito com o maior rigor possível para preservar a saúde de todos. Foi um momento bem difícil, tenso e que exigiu muito do coletivo”.

Enfim, a diretora teatral Esther Goes revelou suas percepções sobre o papel e a importância dos teatros virtuais durante a pandemia:

“A importância dos teatros virtuais foi permitir continuar fazendo, negando a interrupção. Desenvolveram-se algumas técnicas, houve fatos e acontecimentos interessantes, mas o fato mais interessante, a meu ver, é o da imediata menor importância de tudo isso, diante do retorno do teatro presencial. A pandemia acabou, e casas de espetáculos com gente, a princípio com máscaras, logo sem elas, devolveram o virtual e a arte visual para si, e restabeleceram alegremente a arte cênica”.

O teatro brasileiro no presente 2: Teatro na Pós-pandemia e o futuro da arte

Crédito: Getty Images

Com o retorno gradual dos espetáculos presenciais, surge a questão: como retornar com segurança aos palcos?

Gustavo Parreira lembra a experiência de retornar aos palcos presenciais após o período de teatro virtual durante a pandemia:

“Poder voltar aos palcos tem sido maravilhoso! Poder receber o público novamente, ver cada rosto encantado pela beleza do teatro! É incrível ver a energia que um palco tem, embora tenhamos agora que saber que o teatro virtual virou uma realidade e que precisamos estar preparados para tudo. Isso é ser artista! Sobretudo, não deixar a arte morrer e se manter com vontade de fazer arte apesar de todos os desafios”.

Já a Cia República Ativa de Teatro aponta que após o período de restrições promoveu os espetáculos presenciais utilizando divulgação online (via redes sociais) e assessoria de imprensa.

E, enfim, Alexandre Battel, produtor teatral do Grupo O Fi’los de Teatro, responde sobre as medidas implementadas para garantir a segurança e o bem-estar do público, dos artistas e da equipe durante os eventos presenciais com o relaxamento das normas.

“Quando voltamos aos eventos presenciais em novembro, sempre tivemos o cuidado de usarmos equipamentos de segurança, como máscaras, álcool, etc., porém em cena não era possível, com isso, deixamos de atender o público para sessão de fotos ao final dos espetáculos. O teatro se preocupava em isolar poltronas, para as pessoas ficarem mais espalhadas, diminuindo sua capacidade de público”.

Embora o teatro virtual tenha proporcionado novas oportunidades, como alcançar um público mais amplo e explorar novas formas de narrativa, também levantou questões sobre o futuro da arte teatral.

Quem responde um pouco dessas questões é o professor/diretor de teatro e jornalista Sílvio Tadeu,que analisa as possíveis mudanças na forma como o teatro é ensinado e estudado à luz da experiência com teatros virtuais:

“Lamento realmente que o teatro online, tão necessário no ano pandêmico, tenha sido esquecido tão rápido, assim como foi esquecida a nossa vida e lições durante a pandemia do Covid-19 e o isolamento social que ela nos forçou. Parece que tudo aconteceu há 200 anos, pois as pessoas já se esqueceram de suas lições. Sou de pleno acordo que o teatro online volte a ser opção! Muitas pessoas evitam sair à noite, com receio da violência urbana e a venda de ingressos para o teatro online resolveria isso com louvor, aumentando o público de teatro. A união de técnicas para a câmera e o desenvolvimento de outras para a captação de imagens para o teatro online fortaleceria o ator em muitos quesitos, entre eles, voz, presença de palco, satisfazer o espectador online e o presencial com sua performance… Sempre existiu um mito de que, o artista de TV era incompleto por que não estava no teatro e o de teatro era incompleto por que não estava na TV, e o teatro online poderia resolver essa distância. Mas repito, essa forma de fazer teatro foi esquecida, assim que foi relaxado o distanciamento social”.

A Cia República Ativa de Teatro responde se planeja continuar, ou está explorando o teatro virtual de alguma forma mesmo com o retorno das apresentações presenciais:

“Acreditamos que foi uma fase necessária para aquele período, mas nada substitui a relação palco-plateia presencial. A linguagem teatral difere do vídeo, e não temos no horizonte próximo retornar ao virtual”.

Já o ator Gustavo Parreira responde se acredita que este período virtual influenciou de alguma forma sua atuação nos espetáculos presenciais:

“Com certeza, não só na minha forma de atuação, mas como também no teatro em geral, existem grupos de teatro virtual formados durante a pandemia que permanecem até hoje. O artista teve que se render ao uso da tecnologia. Acho que a chave para lidar bem com essa mudança é a partir de agora acolher e saber usar os benefícios da tecnologia e torná-la uma aliada tanto na produção quanto na divulgação dos espetáculos”.

Mas, será que as produtoras de teatro planejam manter aspecto das adaptações realizadas durante a pandemia no funcionamento regular do teatro?

Essa resposta quem nos dá é o produtor teatral Alexandre Battel:

“Enquanto produtor do Grupo O Fi’los de Teatro, continuei prezando sempre a segurança dos atores e público, nunca deixamos de usar álcool gel antes de qualquer contato com o público, cenas que eram feitas na plateia passaram a ser evitadas. Isso continuaremos mantendo”.

E, enfim, a diretora teatral Esther Goes comenta se acredita que o teatro virtual continuará a ser uma parte relevante do cenário teatral mesmo após o retorno dos espetáculos presenciais:

“O que acho mais relevante nisto tudo é o quanto nós todos pensamos TEATRO quando não o tivemos mais. O vácuo do acontecimento humano, do qual já se supunha talvez estar se tornando menos fundamental nas artes, trouxe bem claro que o teatro é um fenômeno humano resiliente e insubstituível, no nosso percurso individual e coletivo, e que a sociedade sem ele perde o espelho mais fidedigno e permanente, desde que o homem olhou a própria figura à beira de um lago”.

Ainda para a diretora teatral, a tecnologia acrescenta, mas não supera, o que existe de visceral na imersão no entrelaçamento de nossas histórias, num simples palco.

“Nós criamos o fenômeno, ou talvez o fenômeno nos obrigou a criá-lo, já que parece que de fato não poderíamos viver sem ele”, finaliza Goes.

À medida que nos aproximamos do futuro, é fundamental que o teatro mantenha sua capacidade única de promover a empatia, a compreensão intercultural e o diálogo social.

Desde suas origens como instrumento de culto e entretenimento até sua adaptação ao mundo virtual, o teatro continua a moldar e refletir a sociedade em que vivemos.

Por isso, ao refletir sobre o passado, o presente e o futuro do teatro, celebramos não apenas sua rica história, mas também sua resiliência e capacidade de se reinventar diante de desafios sem precedentes.

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