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Atlântico Sertão ocupa o CCBB São Paulo

Exposição reúne mais de 70 artistas e propõe releitura do sertão como território de resistência, memória e defesa dos direitos humanos.

Mockup com banner do evento.

O Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP) apresenta, desde 15 de abril, a exposição inédita “Atlântico Sertão”.

São mais de 70 artistas, de diferentes regiões, para apresentar o sertão como um território ampliado de resistência.

O projeto ocupa todos os andares do edifício com pinturas, esculturas, fotografias e instalações que, sob uma perspectiva decolonial, transformam a arte em memória e afirmação.

A mostra articula os conceitos simbólicos de “Atlântico” e “Sertão” em uma narrativa crítica sobre espaços historicamente marcados por violência e exclusão, reconfigurando-os como um campo de criação e defesa de direitos humanos.

“O sertão é um território simbólico no qual diferentes experiências históricas se cruzam e onde a arte pode revelar diferentes narrativas sobre o país”, explica Ariana Nuala, que assina a curadoria ao lado de Marcelo Campos, Amanda Rezende, Jean Carlos Azuos, Rita Vênus e Thayná Trindade.

“Sertão é uma palavra construída, inventada para lugares distantes”, destaca Marcelo Campos.

“Na exposição, atualizado pelos artistas, apresentamos o sertão da tecnologia, do couro, aquele que reflete sobre ecologia e preservação ambiental”, completa o curador.

“Atlântico Sertão” se baseia nas pesquisas acadêmicas de Marina Maciel, responsável pela direção geral e concepção do projeto.

“Adotamos o sentido metafórico de Guimarães Rosa: ‘O sertão está em toda parte’. Esse espaço irrestrito é ressignificado como lugar de resistência e (re)existência de grupos historicamente minorizados que, pelas veredas artísticas, rompem as cadeias da opressão colonial em defesa dos direitos humanos”, pontua Marina Maciel.

O projeto expográfico é assinado por Gisele de Paula, primeira mulher negra a assinar a expografia da 36ª Bienal de São Paulo.

Sua proposta cria um percurso imersivo pelos pavimentos do CCBB, utilizando cores intensas inspiradas na paisagem cromática da região:

“Refletimos sobre um sertão vivo. A intenção é transformar o espaço expositivo em uma experiência sensorial que conecta as diversas narrativas presentes nas obras”, comenta a arquiteta.

O impacto durante a visita ocorre tanto pela presença das obras de arte quanto pela transição simbólica das cores das paisagens sertanejas.

O percurso inicia-se com o verde profundo das vegetações que resistem e brotam nas veredas sertanejas, representando a força da vida que teima em florescer.

Em seguida, o olhar é conduzido pela imensidão do azul absoluto do céu, que reflete a liberdade e a espiritualidade contida nos horizontes abertos.

A jornada culmina no calor do laranja, vermelho e amarelo vibrantes do pôr do sol, tonalidades que banham o sertão ao fim do dia e simbolizam o fogo das lutas e a esperança que se renova em cada entardecer.

Os seis núcleos curatoriais

S/ Título, da série Travessia de retorno, 2022. Márvila Araújo. Foto divulgação.

Estruturada em seis eixos, a mostra reúne diferentes perspectivas curatoriais que, juntas, constroem uma leitura múltipla e contemporânea do sertão como território vivo, colorido, atravessado por dimensões históricas, espirituais, políticas e ambientais.

No núcleo Sertão Atlântico, com curadoria de Marcelo Campos, a mostra parte da relação entre terra e mar para abordar heranças indígenas, africanas e populares.

Em Cosmologias em Movimento, da curadora Rita Vênus, os destaques são as práticas espirituais como formas de organização da vida e leitura do mundo.

Em Ecologias Ancestrais e Futuros da Terra, de Thayná Trindade, está o sertão como um campo de conhecimento ancestral que resiste a lógicas externas e projeta possibilidades de continuidade.

A dimensão coletiva ganha centralidade em Comunidade, Retomada e Sertões Negros, com curadoria de Amanda Rezende, que evidencia modos de vida baseados na partilha, na oralidade e na memória.

Em Arquivos Vivos, Grafias e Inscrições da Terra, a curadora Ariana Nuala propõe o sertão como um sistema ativo de registro, onde inscrições ancestrais dialogam com tecnologias contemporâneas e novas formas de arquivo.

Encerrando o percurso, Sertão Atlântico, Travessias e Poeiras que Vêm do Saara, de Jean Carlos Azuos, amplia a perspectiva ao conectar Brasil e África por meio de relações geológicas, históricas e culturais.

O núcleo evidencia fluxos de pessoas e saberes que atravessam o Atlântico, reforçando a ideia de que o sertão é também um território de circulação e permanência, onde diferentes tempos e geografias seguem em diálogo.

Os trabalhos apresentados em “Atlântico Sertão” são majoritariamente originários das regiões norte e nordeste, comunidades afrodescendentes e indígenas.

Entre os participantes estão os artistas Antonio Obá, Ayrson Heráclito, Aline Motta, Dalton Paula, Denilson Baniwa, Jaime Lauriano, Lidia Lisboa, Maria Macedo, Nádia Taquary, Rafael Bqueer, Rosana Paulino, Tunga, Ziel Karapotó e muitos outros.

A mostra apresenta trabalhos inéditos comissionados especialmente para a exposição, com destaque para a instalação da premiada artista multimídia biarritzzz.

Projetada para o térreo do CCBB São Paulo, a obra reúne múltiplas telas digitais em uma estrutura triangular que dialoga com o imaginário do sertão, em referência ao triângulo, instrumento icônico dos trios de forró.

Concebida especialmente para o circuito CCBB, “Atlântico Sertão” permite uma experiência ampliada por meio de uma programação paralela que inclui visitas guiadas, debates com artistas e atividades educativas focadas no direito ao sonho, na reparação histórica e no papel da arte na defesa dos direitos humanos.

Para Cláudio Mattos, gerente geral do CCBB São Paulo, “a mostra promove reflexões sobre identidade, inclusão e diversidade, por apresentar o sertão como espaço de invenção, resistência e multiplicidade cultural de forma potente e plural, demonstrando que a arte é instrumento de pensamento crítico e construção de novas narrativas sobre o Brasil”.

Após a temporada paulista, a exposição segue para o CCBB Salvador, em setembro, e para o CCBB Brasília, no início de 2027.

Coletivo Atlântico navega pela arte decolonial para avançar na defesa dos direitos humanos

“Atlântico Vermelho”, 2017. Rosana Paulino. Foto: divulgação.

A reflexão sobre a defesa dos direitos humanos pela arte tem origem na pesquisa de Marina Maciel, iniciada no mestrado e aprofundada em seu doutorado na Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), sob o tema “Direitos Humanos Achados na Arte” (MACIEL, 2024).

Essa investigação ultrapassou o campo teórico ao focar em ações concretas de transformação por meio de intervenções artísticas.

Em 2023 iniciaram-se as articulações do Coletivo Atlântico, como um movimento social, artístico, jurídico, político e filosófico.

Sob essa construção coletiva, a escolha da nomenclatura “Atlântico” se deu em virtude de o oceano representar morte e sofrimento por empreitadas coloniais.

Agora, pela arte decolonial, ele é ressignificado como um mar de vida e resistência.

As intervenções do Coletivo consolidam-se como um projeto contínuo de mobilização.

O percurso teve início com a edição “Atlântico Vermelho”, título inspirado na obra da artista Rosana Paulino, que utiliza a cor para denunciar o massacre e a escravização da população negra em um espaço não apenas geográfico, mas histórico.

Nessa ocasião, pela primeira vez na história, o prédio principal da ONU em Genebra recebeu uma exposição com 22 artistas afro-brasileiros e uma delegação de 50 pessoas que realizaram palestras, performances e apresentações musicais.

Ao final, os integrantes do Projeto Atlântico Vermelho construíram coletivamente uma sugestão de recomendação internacional entregue na ONU.

A repercussão internacional levou à idealização da segunda edição: “Atlântico Floresta”.

Inaugurada em novembro de 2024 no Museu de Arte do Rio (MAR), durante a cúpula do G20, a mostra reuniu cerca de 50 expoentes da arte contemporânea para denunciar o genocídio e o servilismo impostos aos povos originários.

As ações serviram como plataforma de mobilização em defesa das demarcações de terras e do meio ambiente equilibrado, manifestando oposição às práticas exploratórias do agronegócio.

Como desdobramento prático, o Coletivo articulou também a minuta do Projeto de Lei nº 1.928/2024, que visa regulamentar a profissão de artista visual no Brasil e tramita no Congresso Nacional desde maio de 2024.

A exposição “Atlântico Sertão” foi selecionada no Edital CCBB 2026–2027 e viabilizada por meio da Lei Rouanet.

O projeto conta com o apoio da Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), do Instituto Guimarães Rosa/Ministério das Relações Exteriores (IGR/MRE) e Museu de Arte do Rio (MAR).

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