“Tudo começou com um Renato ainda menino. Aos seis anos de idade, ganhei de minha mãe um disco da trilha sonora de ‘A Branca de Neve’, onde a voz da princesa era interpretada por Dalva de Oliveira. Ali, na vitrola da infância, nasceria uma paixão avassaladora e que atravessaria décadas, palcos e revoluções, culminando no encontro real e improvável entre fã e diva poucos anos antes dela nos deixar”, diz Renato Borghi.
Impulsionado por este amor incondicional, Borghi revisita suas memórias para homenagear uma das principais cantoras brasileiras de todos os tempos.
“Minha Estrela Dalva” é a celebração dessa história, um reencontro do artista com sua musa.
Em 2026, essa memória ganha novo corpo e voz no palco em um encontro de gigantes.
Soraya Ravenle, que iniciou sua brilhante carreira no teatro musical integrando o coro de “A Estrela Dalva” (1987), grande sucesso de Borghi com Marília Pêra, retorna agora para ocupar o centro do palco e encarnar a própria Estrela.
Com sua potência vocal e sensibilidade única, ela não interpreta apenas a “Rainha do Rádio”, mas a força da natureza que cantou a dor rasgada antes disso virar moda, a mulher que desafiou os moralismos de sua época com o peito aberto e a garganta em chamas.
Soraya traz à cena o mito humano, o “Rouxinol do Brasil”, que ensinou a um país inteiro que o sofrimento, quando cantado, vira beleza.
“Nem nos meus mais belos sonhos eu poderia imaginar estar ao lado de Renato Borghi para falar de seu amor e devoção por Dalva de Oliveira, considerada por Villa-Lobos e tantas outras pessoas como a maior cantora popular brasileira. E meu primeiro musical foi ‘A Estrela Dalva’, com texto e atuação do próprio Renato, estrelado por Marília Pêra. É uma volta de 360° na minha vida, quase toda dedicada ao teatro musical brasileiro. Tenho pensado que, assim como me aconteceu com Carmen Miranda, Dolores Duran e Isaura “Isaurinha” Garcia, o que faço é um trabalho de tradução. Me aproximo, investigo, estudo, decifro os códigos dessa língua. Dalva Vicentina de Oliveira, de que lugar ela canta? Que caminhos sua voz faz? Que histórias essa voz conta para nós ainda hoje? Não me interessa a cópia da casca, me interessa chegar perto da sua alma e colocar a minha bem coladinha com a dela, para que juntas falemos de amor, música, machismo, coragens e medos, alegrias e tristezas de uma artista brasileira, grandiosa, inesquecível. Obrigada, Dalva, por sua existência!”, declara Ravenle.
Em um jogo cênico vertiginoso, Renato Borghi divide a cena com sua própria juventude.
Elcio Nogueira Seixas, que, além de dirigir o espetáculo, interpreta o Renato de 1969, um jovem ator da contracultura que, entre a rebeldia do Teatro Oficina e o glamour do rádio, descobre em Dalva a alma do Brasil.
“Desde o início dos anos 90, divido e multiplico a cena do mundo com Renato. Fui seu aluno e tornei-me seu parceiro na arte. Dalva entrou em mim como entrou nele, pela voz, pelo espanto, pelo chamamento. Só que o meu bolachão de 78 rotações foi o próprio Borghi. Hoje dirijo ‘Minha Estrela Dalva‘ ao lado de meu amado amigo e mestre Elias Andreato, que foi quem me aproximou do Renato. E no palco, sou ele jovem, o menino de sete anos que ouviu aquela voz pela primeira vez e nunca mais foi o mesmo. Neste espetáculo, sigo a receita antropofágica de Oswald de Andrade e faço a devoração de Renato e Dalva”, diz Elcio Nogueira Seixas.
Completando esse triângulo de paixões, Ivan Vellame empresta sua voz de rara beleza para dar vida aos amores de Dalva, com destaque para o compositor Herivelto Martins, trazendo ao palco os sambas imortais e os conflitos públicos e midiáticos que marcaram a era de ouro do rádio.
“A Dalva que Renato nos traz é uma convocação para adentrarmos a vida de uma mulher que viveu de alma nua, vocacionada para o amor e para a arte. Entro representando uns cabras que estranhavam o amor. Construindo com a direção, chegamos a uma encenação não documental, onírica e mítica, mas que não perde o valor de reflexão de que esses homens, os estranhos ao amor mas que amavam muito, Bruno, Herivelto e Kiko, viam o feminino como sinônimo de desqualificação do masculino. Espero que, principalmente, os homens, saiam do teatro mais amorosos, menos machões. Se eu for vaiado em cena, por perceberem que homens assim já não estão com nada há muito tempo, vai ser lindo. Espero que: — Homens, honremos a feminilidade que nos é intrínseca”, enfatiza Vellame.
A direção do espetáculo é dividida com o renomado Elias Andreato.
O ator e diretor empresta toda sua sensibilidade e experiência para extrair o melhor de cada ator e dar forma ao texto poético escrito por Borghi.
“Em ‘Minha Estrela Dalva’, Renato Borghi escreve uma declaração de amor à sua musa eterna, Dalva de Oliveira. Ao lado de Elcio Nogueira Seixas, construímos um espetáculo que é memória, música e exposição profunda. Soraya Ravenle não interpreta Dalva, ela a faz pulsar, e ver Renato se confrontar com sua própria história em cena é testemunhar um dos gestos mais íntimos e corajosos do teatro”, destaca Andreato.
“Receber Renato Borghi no Teatro do SESI-SP é, por si só, uma honra imensurável. Este palco, com mais de 60 anos de história, encontra em ‘Minha Estrela Dalva’ a oportunidade de homenagear dois ícones da arte brasileira: Dalva de Oliveira e o próprio Renato. Ao revisitar essa história marcada por amor, admiração e devoção a uma das principais vozes da música nacional, o espetáculo também ilumina a trajetória de uma mulher protagonista de sua própria vida, determinada, independente e fiel aos seus sonhos em um momento histórico onde o feminismo começava a se consolidar como movimento social. Ao acolher esta montagem, o SESI-SP reafirma seu compromisso com a difusão e a produção cultural de excelência, oferecendo ao público de São Paulo acesso gratuito a obras que contribuem para o desenvolvimento social, artístico e humano”, ressalta Anna Helena da Costa Polistchuk, analista de Atividades Culturais do SESI-SP.
“Minha Estrela Dalva” acontece a partir de 28 de março, no Teatro do SESI-SP (localizado na Avenida Paulista, 1313), de quinta a domingo.
Os ingressos são liberados sempre às segundas-feiras, às 8h, exclusivamente para as sessões daquela semana, no site do SESI.
Dalva de Oliveira e o empoderamento feminino
Em “Minha Estrela Dalva”, cada homem que passou pela vida de Dalva de Oliveira exerceu sobre ela uma variação do mesmo poder: o poder de definir quem ela era, quanto valia e quando deveria desaparecer.
Herivelto, o marido compositor, dizia: “Fui eu que te fiz, sua caipira”, e cobrava a dívida como se o talento dela fosse propriedade dele.
Kiko, o segundo marido, queria transformá-la numa diva europeia bem-comportada e Bruno roubou seu dinheiro e fugiu.
A televisão acendeu um canhão de luz no seu rosto e disse que não havia como fazer um close naquela mulher envelhecida.
A resposta de Dalva, que atravessa a peça como um refrão, é uma só: “Eu não tenho dono.”
Chamaram-na de Messalina, de indigna de ser mãe, de cafona, de acabada.
Pelos jornais dos anos 1950, Dalva foi submetida ao mesmo linchamento público que as redes sociais aplicam hoje a qualquer mulher que ouse viver fora do roteiro.
A tecnologia mudou, a lógica, não.
Mas Dalva transformou cada golpe em canção.
Quando o ex-marido a difamou, ela gravou “Errei sim” e devolveu: “Que venha logo a primeira pedra me atirar.”
Quando quiseram enterrá-la, cantou “Bandeira Branca” no Maracanã e o público se ajoelhou.
“Se meu coração está machucado, deixo sangrar, eu canto melhor assim, de peito aberto.”
Renato Borghi, que a amou desde os seis anos de idade, escreveu esta peça não para embalsamá-la em nostalgia, mas para devolvê-la ao palco viva, contraditória e indomável, uma mulher que bebe demais, que mostra as pernas, que faz reza forte contra os ex-companheiros, que briga com o diretor e reescreve as próprias cenas.
Borghi tem a sabedoria de não idealizá-la, porque o que torna Dalva uma figura poderosa para as mulheres de hoje não é a perfeição, é a inteireza.
No clímax do espetáculo, Dalva canta “Jenny dos Piratas”, de Brecht e Kurt Weill: a história da mulher humilhada que um dia será a única de pé quando tudo ruir.
É a convergência exata entre a emoção visceral da maior cantora popular brasileira e o teatro político.
Quando lhe perguntam quem deve morrer, Jenny responde: “Todos”.
É a fantasia de justiça de todas as mulheres que foram esmagadas e se recusaram a ficar no chão.
Sua história não é relíquia, é espelho.
E o que vemos nele hoje é que a luta de Dalva continua sendo a de todas as mulheres.
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