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Entrevista: Entre monstros e o fascínio pelo desvio

Do true crime ao cinema, descubra como a cultura pode oferecer repertório simbólico para a atração pelo transgressor e tensionar empatia, poder e idealização.

Foto da entrevistada.

Entre narrativas de true crime no streaming, personagens como Coringa e obras inspiradas em crimes reais, o transgressor deixou de ser apenas ameaça, virou narrativa, estética e, em alguns casos, objeto de desejo.

A cultura não cria a hibristofilia, mas oferece linguagem para ela existir: poder, redenção, exclusividade.

Nesse jogo, a linha entre compreender e romantizar é frágil e, por vezes, deliberadamente borrada.

É nesse ponto que a análise clínica se torna inevitável.

A partir dessa interface entre cultura e subjetividade, a psicóloga e neuropsicóloga Dra. Elaine Di Sarno analisa os mecanismos psíquicos envolvidos nesse tipo de atração e ajuda a entender onde termina a narrativa e começa o investimento afetivo no real.

Victor Hugo Cavalcante: Do ponto de vista clínico, a hibristofilia pode ser compreendida como uma busca por poder simbólico, controle ou fantasia de redenção? Quais mecanismos psíquicos, como idealização, projeção ou dissociação, costumam estar envolvidos?

Dra. Elaine Di Sarno: A hibristofilia costuma ser entendida menos como uma simples “atração por criminosos” e mais como um fenômeno complexo que envolve fantasia, dinâmica de poder e organização psíquica específica.

Não existe um único mecanismo explicativo, mas alguns padrões aparecem com frequência.

Em muitos casos, o criminoso funciona como um objeto investido de poder simbólico. A pessoa hibristofílica pode:

Sentir-se ligada a alguém percebido como transgressor, poderoso ou fora das normas.

Experimentar uma identificação indireta com esse poder.

Viver uma forma de empoderamento vicário.

Aqui, ocorre frequentemente idealização: o criminoso é percebido como excepcional, incompreendido ou injustiçado, enquanto aspectos violentos são minimizados.

Esse processo se relaciona com mecanismos como idealização defensiva (o objeto é mantido perfeito para sustentar a fantasia), negação parcial da realidade e clivagem entre o “criminoso real” e o “homem especial”.

Victor Hugo Cavalcante: A humanização artística/cultural do transgressor pode ampliar a empatia sem necessariamente gerar romantização? Onde está a linha entre compreensão social e idealização perigosa?

Sim, a humanização artística ou cultural do transgressor pode ampliar a empatia sem necessariamente levar à romantização, mas isso depende muito de como a narrativa é construída.

A linha entre compreensão social e idealização perigosa está menos no fato de mostrar o criminoso como humano e mais na forma como responsabilidade, dano e contexto são representados.

Victor Hugo Cavalcante: O consumo recorrente de narrativas de true crime pode alterar a percepção coletiva do risco ou da violência? Há evidências de dessensibilização emocional ou de outros efeitos psicológicos?

Sim. Há um corpo crescente de pesquisas sugerindo que o consumo frequente de narrativas de true crime pode influenciar percepções coletivas de risco, medo e violência, embora os efeitos não sejam uniformes nem determinísticos.

Em geral, os estudos apontam três tipos principais de impacto: distorção da percepção de risco, possíveis processos de dessensibilização e efeitos cognitivos sobre como entendemos o crime.

Victor Hugo Cavalcante: O que explica a idealização de criminosos reais mesmo diante de provas incontestáveis de violência? Que papel desempenham fatores como aparência, narrativa midiática e fantasia de exclusividade?

A idealização de criminosos reais, mesmo quando há provas claras de violência, pode ser compreendida como resultado da interação entre vieses cognitivos, processos psíquicos defensivos e construções narrativas culturais.

A psicologia e a criminologia mostram que as pessoas raramente respondem apenas aos fatos; elas respondem também à forma como os fatos são percebidos, narrados e integrados à própria identidade psicológica.

Victor Hugo Cavalcante: Como diferenciar a fruição estética de personagens sombrios de uma identificação afetiva que se desloca para o campo do desejo real? Que marcadores psíquicos indicam essa transição?

A diferença entre fruição estética e identificação afetiva intensa com personagens sombrios depende de como o personagem é incorporado emocionalmente:

Distância simbólica: fruição estética mantém separação entre ficção e realidade; identificação afetiva reduz essa distância.

Idealização: na fruição estética, o personagem é moralmente ambíguo; na identificação, aspectos negativos são minimizados ou justificados.

Fantasia relacional: fruição estética envolve interesse narrativo; identificação intensa gera fantasias de vínculo, exclusividade ou redenção.

Racionalização: identificação intensa costuma trazer defesa emocional e negação de críticas.

A diferença entre fruição estética de personagens sombrios e identificação afetiva que evolui para desejo real depende principalmente de três marcadores psicológicos.

Distância estética

Na fruição estética, a pessoa reconhece o personagem como parte de uma narrativa e mantém separação entre ficção e realidade.

Quando essa distância diminui, surge identificação psíquica (conceito associado a Sigmund Freud).

Idealização

Na apreciação estética, o personagem é visto como complexo e ambíguo.

Na identificação afetiva intensa, ocorre idealização: a violência ou os aspectos negativos são minimizados ou justificados.

Fantasia relacional e investimento emocional

O interesse narrativo pode se transformar em fantasias de relação (imaginar vínculo, exclusividade ou redenção do personagem).

Em casos mais extremos, esse padrão pode se aproximar da Hibristofilia.

Victor Hugo Cavalcante: Comunidades virtuais de admiradores podem reforçar fantasias de intimidade e pertencimento? Quais vulnerabilidades emocionais tornam certos indivíduos mais suscetíveis a esse tipo de vínculo?

Sim. Comunidades de admiradores online reforçam fantasias de proximidade e pertencimento ao oferecer validação social e emocional coletiva.

Indivíduos mais vulneráveis tendem a ter solidão ou isolamento social, baixa autoestima, forte necessidade de pertencimento e tendência a idealizar figuras externas.

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