Durante a cerimônia do British Academy Film Awards de 2026, um momento inesperado interrompeu brevemente a transmissão ao vivo da premiação.
Enquanto os atores Michael B. Jordan e Delroy Lindo estavam no palco para apresentar uma categoria, John Davidson (ativista que inspirou o filme premiado “I Swear”, que conta sobre sua vivência com a Síndrome de Tourette) na plateia gritou uma ofensa racial em direção ao palco.
O episódio gerou surpresa no auditório e repercutiu rapidamente nas redes sociais, já que a fala foi captada pela transmissão.
Pouco depois, o apresentador Alan Cumming pediu a compreensão da plateia e explicou que as falas eram tiques involuntários de um convidado com a síndrome.
O ativista também se manifestou, dizendo estar “profundamente mortificado” com a possibilidade de suas falas terem sido interpretadas como intencionais.
A situação trouxe novamente à discussão um sintoma específico chamado coprolalia, a emissão involuntária de palavras socialmente inadequadas ou obscenas.
Embora seja o aspecto mais conhecido da Tourette no imaginário popular, especialistas apontam que ele ocorre apenas em uma minoria dos pacientes.
O caso gerou debate sobre estigma, desconhecimento público sobre a síndrome e os desafios de lidar com situações inesperadas em eventos transmitidos ao vivo.
Como parte da série do Jornal Folk sobre o tema, a reportagem entrevista Alexandro Cardoso, psicopedagogo, morador de Joinville (SC) e criador da Fraternidade Comunitária Tourettes Brasil Total, que convive com a síndrome.
Victor Hugo Cavalcante: Como pessoas que convivem com Tourette reagiram ao episódio ocorrido no British Academy Film Awards?
Alexandro Cardoso: O episódio no BAFTA apareceu como normalidade para nós que temos a Síndrome de Tourette, nós reagimos com aplausos, por ser uma oportunidade de mostrar nossa face diante do mundo.
Victor Hugo Cavalcante: Situações como essa ajudam a aumentar a compreensão pública ou acabam reforçando estereótipos?
Essas situações deveriam acontecer mais vezes em eventos públicos, esses acontecimentos contribuem muito para a conscientização e para a humanização dos ambientes e corações, visto que a Tourette ainda é pouco divulgada na sociedade, muitas pessoas ainda não sabem do que se trata.
Victor Hugo Cavalcante: O caso pode servir para explicar melhor o que é a Coprolalia?
A coprolalia é um tique vocal complexo, em que pessoas com Tourette falam frases ou palavras obscenas.
Esse comportamento vocal pode trazer complicações dependendo do ambiente e das pessoas que escutam.
O caso ocorrido ajudou muito o nosso trabalho de conscientização, para mostrar que é um comportamento normal e a pessoa não faz deliberadamente, é involuntário.
Victor Hugo Cavalcante: Quem tem Tourette costuma ter receio de situações públicas por causa dos tiques?
Sofremos um estigma dolorido com nossos comportamentos involuntários, somos chamados de esquisitos, malucos, minhoquinhas, etc.
Temos nosso espaço social reduzido porque as pessoas ainda não aceitam nossa presença.
Isso dói na alma, nossos sintomas de depressão também vêm desse contexto.
Victor Hugo Cavalcante: Já houve episódios de constrangimento em espaços públicos semelhantes ao que ocorreu no BAFTA?
Quem tem tiques motores e vocais tem um receio natural de sair em público e frequentar ambientes sociais.
É comum sentir medo de ser rotulado, medo de ser agredido verbalmente e até fisicamente.
Eu mesmo já fui agredido na escola por causa da minha Tourette, sempre tive receio de retornar para a escola, pois poderia sofrer agressões…
Crianças são comumente vítimas de bullying nas escolas, e o constrangimento é real e faz a gente sofrer muito.
Eu já fui castigado pelos professores na fase escolar, fui colocado no canto da sala, ao lado do quadro, para que todos vissem os meus tiques e isso servisse de castigo para não fazer mais.
Os professores não sabiam do que se tratava e, igual ao meu sofrimento, existem milhares que ainda sofrem.
Victor Hugo Cavalcante: Que tipo de reação do público costuma ser mais difícil de lidar?
Quando estamos no ambiente social, percebemos as reações das pessoas, percebemos os olhares, percebemos os cochichos, as risadas.
Essas percepções nos causam muito constrangimento e inseguranças, esses sentimentos negativos só fazem aumentar a frequência e intensidade dos tiques.
São os momentos mais difíceis de se lidar com a Tourette em público.
Victor Hugo Cavalcante: O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre a Síndrome de Tourette?
O que eu gostaria que as pessoas soubessem sobre a Tourette é que somos normais com a nossa Tourette, ela é nossa companheira, conseguimos ser e fazer o que quisermos levando a Tourette junto a gente.
Também gostaria que as pessoas soubessem que nossa capacidade profissional não fica abalada com a presença da ST, nossa inteligência supera nossos deslizes causados pelos tiques.
Victor Hugo Cavalcante: Como escolas, eventos e espaços públicos poderiam lidar melhor com pessoas que têm a síndrome?
As escolas deveriam ser o principal ambiente para promover a conscientização e a humanização.
As secretarias de educação deveriam promover mais palestras para professores, alunos e familiares, as prefeituras deveriam estar mais abertas ao debate, promovendo leis que nos auxiliem no amparo psicossocial.
Precisamos de escolas mais preparadas para saber lidar de forma correta com crianças que têm a Síndrome de Tourette.
Esse assunto é muito pouco divulgado e quanto mais eventos públicos forem realizados, seremos melhor aceitos na sociedade.
Victor Hugo Cavalcante: Que tipo de informação a mídia deveria priorizar ao falar sobre Tourette?
A mídia, no geral, tem seu papel indispensável no projeto de construção do conhecimento.
Os programas de TV, rádio, internet, podem promover a divulgação das verdades da Tourette, falar sobre os principais conceitos, demonstrar a verdadeira realidade das famílias, contribuir com a fiscalização das políticas públicas que ainda estão iniciando o debate, trazer a público nossas dificuldades e anseios.
Temos o Projeto de Lei 4767/2020 que está parado no Senado, esse projeto visa classificar a Síndrome de Tourette como deficiência, com essa lei aprovada, as famílias teriam mais amparo e facilidades.
O papel das mídias também é nos auxiliar na cobrança das nossas prioridades.
A mídia também pode promover reportagem, entrevistas, etc.
Quanto mais falarmos da Síndrome de Tourette, melhor será nossa vida social.
Continue navegando pelo Jornal Folk e descubra conteúdos que inspiram, informam e conectam diferentes realidades.






