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O poder do penteado afro para a identidade negra

Confira por que os penteados afros são mais do que um símbolo de beleza, são símbolos de identidade e resistência na luta contra a discriminação racial.

Ilustração de uma pessoa negra com uma coroa na cabeça.

O Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial é celebrado em 21 de março de cada ano.

Esta data foi escolhida em memória do Massacre de Sharpeville, ocorrido em 21 de março de 1960, na África do Sul, quando a polícia abriu fogo contra manifestantes que protestavam pacificamente contra as leis de apartheid, matando 69 pessoas e ferindo centenas.

A luta contra a discriminação racial é uma questão global que envolve a promoção da igualdade, justiça e respeito pelos direitos humanos de todas as pessoas, independentemente de sua origem étnica ou racial.

É um dia para conscientizar sobre a persistência da discriminação racial e para promover a tolerância, a inclusão e a diversidade em todas as sociedades.

O cabelo afro como identidade e representatividade

Foto de Ilcéi Mirian – Crédito: Lu Antonio

Para os negros, uma das formas mais marcantes de expressão de identidade é através dos penteados afros.

Esses estilos não apenas exibem a beleza dos cabelos naturais, mas também carregam um profundo significado de representatividade e orgulho étnico.

Quem explica um pouco a importância de se trabalhar a representatividade por trás dos cabelos cacheados e crespos é o hair stylist Juninho Loes, referência em crespos e cacheados:

“Somos um Brasil com 134 anos de república, e só depois de tanto tempo as crespas e cacheadas podem se sentir representadas por profissionais e ter esperança de um cuidado digno, isso não é só representatividade, é a construção de um novo país”.

Quem também comenta a importância histórica por trás desses penteados é Ilcéi Mirian, cantora formada em História pela PUC (Campinas–SP):

“O ato de trançar os cabelos, remete a uma memória ancestral e o sentimento ao usarmos tranças é de empoderamento, de elevação da autoestima, de embelezamento incrível e a letra da música Trança (escute abaixo), gravada por Larissa Luz, nos transmite todas essas sensações”.

Ainda segundo Ilcéi, os povos africanos em seu continente de origem usavam uma variedade de modelos de tranças que poderiam significar a idade da pessoa, o estado civil, a posição social e os eventos específicos nos quais poderiam ser usadas.

“Com o tráfico negreiro e com os africanos trazidos ao Brasil para o trabalho escravo, era necessário promover o apagamento da história desses indivíduos e, dentre inúmeras práticas, uma delas era raspar os cabelos dessas pessoas para que perdessem sua identidade e formalizasse o processo de desumanização do povo africano que havia sido iniciado na ‘captura’, como animais e no transporte nos navios tumbeiros”.

A historiadora ainda comenta que depois de algum tempo, os africanos oriundos de diversas partes do continente precisavam se comunicar e uma das maneiras encontradas, foi o uso das tranças, como a nagô, por exemplo, para transmitir o desejo de liberdade, a rota e o caminho da fuga (mapas), bem como o suporte para armazenarem sementes de milho, feijão, arroz, etc., para o plantio que representaria o sustento para a sobrevivência nos quilombos.

“Sendo assim, os diversos tipos de tranças, o Black Power que se tornou popular entre os afro-americanos nos anos 60 e foi adotado por vários ativistas dos direitos civis, como Ângela Davis e popularizado por artistas, assim como os turbantes que tem utilidades diversas na África como enrolado no corpo para o transporte de água ou tipo ‘canguru’ para carregar os filhos ou ainda apoio de base para carregar latas de água na cabeça, o penteado afro é pura representatividade”.

Portanto, segundo Ilcéi Mirian, “existe muita história, ancestralidade, luta e resistência por trás do penteado afro, tranças, dreads, turbantes, acessórios e moda afro. Acredito que atingimos um caminho sem volta quanto à vontade e orgulho de acessarmos nossas raízes”.

Segundo a também cantora, essa evolução pode ser observada, ao se comparar o público da Feira Cultural Afro Mix – Campinas, realizada por Ilcéi Mirian e seu sócio, Marcos Ferreira.

“Na primeira edição, realizada em 2004, poucos visitantes vestiam a sua ancestralidade. No decorrer dos anos, tudo foi se modificando de tal forma que, atualmente, usamos nossas tranças, turbantes e vestimos nossa Negritude o ano todo e em todos os lugares. É óbvio que em algumas situações, a Branquitude tenta de alguma forma nos constranger, mas, cada vez mais, nós, nossos jovens, nossas crianças e nossos idosos (que geralmente não tiveram a oportunidade de estudar a própria história para poder argumentar), estamos em constante movimento e preparo para esse confronto de ideias e argumentos, conscientes de que nós temos que exigir o respeito e que devemos, sim, constranger e expor os racistas. Seja nas redes sociais, no ambiente escolar ou de trabalho, pois se faz urgente uma sociedade antirracista na prática com a participação efetiva com pessoas de todas as etnias”.

Já de um ponto de vista psicológico, a psicóloga Dione Nogueira N. de Souza responde um pouco da importância do penteado afro e de sua representatividade para a pessoa negra.

“Os penteados afros ao longo da história representam a ancestralidade do povo negro, com diferentes significados em diferentes etnias. A exemplo das tranças Nagô, que eram usadas para mostrar rotas de fuga pelas pessoas negras escravizadas ou guardar sementes de arroz para o plantio, já que o alimento era escasso”.

Ainda conforme a psicóloga e consultora de Diversidade e inclusão, que ainda atua na área de Recursos humanos na Maurício de Sousa Produções, o psicanalista Jurandir Freire Costa aponta que “o negro é violentado de forma constante e cruel, sem pausa ou repouso e pela falta de encarnar no corpo e os ideais de ego do sujeito branco e ao se recusar atender os ideais brancos, a presença do corpo negro sofre uma violência racista e uma tendência de destruição a identidade do sujeito negro”.

“Logo, a principal característica, o que chega primeiro quando falamos do sujeito negro, é o cabelo. É o que chega na frente, objeto de estigma da negritude”, complementa Dione Nogueira.

A psicóloga ainda diz que os penteados afros causam uma validação da imagem do ser enquanto um corpo negro presente em um ambiente.

Sendo assim, todas às vezes que uma pessoa negra usa um penteado afro, ela está se autoafirmando, como uma pessoa negra, como alguém pertencente a uma comunidade: tudo isso perante uma sociedade estruturalmente racista.

“Ao se afirmar, ela também se empodera e aumenta a sua autoestima. Penteados afros, como as tranças, eram e ainda são utilizados por algumas culturas africanas como marcadores sociais, estado civil, idade, localidade, etc.”, complementa Dione.

Dione ainda aponta que o cabelo é um dado de grande relevância na vida de qualquer pessoa, ele pode contar a história de uma pessoa, fazer com que uma pessoa se sinta feia, bonita, fraca ou forte.

“Se o cabelo de uma pessoa não está com uma aparência ou aspecto desejado, isto pode trazer um atravessamento no sentir dessa pessoa e afeta a sua expressão social. A exemplo da expressão Bad hair day (dia do cabelo ruim)”.

O penteado na vida de mulheres, homens e crianças negras é fundamental para reafirmação e construção da sua autoimagem, ele traz o senso de beleza e pertencimento à sua comunidade, além de fortalecimento identitário e político.

Algo que o colonialismo e o racismo fragmentaram e continuam tentando o tempo todo tirar do sujeito negro.

A psicóloga finaliza dizendo que “chamado de ‘O instrumento mais importante da consciência política entre africanas e africanos’ na época da diáspora por Grada Kilomba, o cabelo afro se mantém em meio a diversas tentativas de apagamento étnico e identitário”.

Cabelos afros: Uma luta por mais representatividade e consciência

Crédito: Getty Images

Como vimos, ao longo dos séculos, o cabelo afro foi sistematicamente marginalizado, enquanto os padrões eurocêntricos de beleza foram glorificados e promovidos como ideais a serem alcançados.

Isso levou muitos indivíduos negros a alisarem, alisarem quimicamente ou esconderem seus cabelos naturais para se conformarem às normas sociais dominantes.

Mas, será que atualmente existem ações para reafirmar a autoestima e a beleza negra por meio dos cabelos, que como já vimos é um ícone de representatividade para o ativismo negro?

Juninho Loes também é criador do movimento Nunca Foi Só Cabelo, que resgata a origem capilar e empodera pessoas por meio da transição, desconstruindo os padrões de beleza impostos pela sociedade.

E ele explica como funciona este trabalho e sua importância para autoestima e representatividade da pessoa negra.

“Através da educação capilar, o projeto Nunca Foi Só Cabelo, tende a partilhar recursos e soluções para os cuidados dos crespos e cacheados, com uma educação antirracista, baseado na história do nosso país, letrando os profissionais de como o impacto do racismo estrutural, negou e inferiorizou o discurso do uso do cabelo natural, e como a transição capilar pode revolucionar a nação brasileira das imposições políticas e sociais do padrão eurocentrista, justificando porque a nação crespa carece de um acolhimento especial para auxiliar nessa revolução, feito produzido diariamente no espaço de atendimento do Loes Saúde & Beleza, porque Nunca Foi Só Cabelo!”.

Transição capilar: Como fazer e quais cuidados com o cabelo?

Foto-montagem da transição capilar de Renata Nascimento – Crédito: Arquivo cedido

Em busca de recuperar a autoestima e vencer o preconceito, mulheres negras fazem a transição dos fios e se assumem crespas.

Este foi o caso de Renata Nascimento, 42, empreendedora e estrategista de imagem e posicionamento,que comenta um pouco sobre como começou a aceitar seu cabelo:

“Eu comecei a aceitar meu cabelo após o procedimento de transição capilar com o Juninho (Loes), mas claro, não foi fácil ou simples assim, desde criança não sabia ao certo como meu cabelo era, por falta de tempo de cuidar, ou condições financeiras na época, a solução que minha mãe encontrou foi de trançar meus cabelos por praticidade, e por muitas vezes eu passava a semana inteira com aquele penteado. Isso me gerou alguns traumas, pois sofri muito bullying na escola, conforme fui crescendo através das dores, me rendi aos procedimentos químicos para ser aceita, entendi que o padrão de beleza que a sociedade apresentava era um padrão que eu não me encaixava, por muito tempo eu me escondi, vivi um personagem, mudei meu cabelo muitas vezes, fiz muitos procedimentos, posso dizer que mudei para a sociedade e não verdadeiramente para mim”.

Para chegar onde está hoje, Renata conta que teve que buscar muitos recursos, autoconhecimento e desenvolvimento, para se reconhecer, saber quem era e o que de fato a representava.

“Todas as cicatrizes do meu passado continuam na minha história, mas foi o que me ajudou a me tornar quem eu sou, me fortaleceu até aqui, por isso fazer a transição me fez revisitar muitos lugares escuros do meu passado, dolorosos, e sem recurso dói muito, mas minha maior felicidade é chegar até aqui com a força que eu tenho”.

Ainda segundo a empreendedora “passei por esse processo de transição com uma pessoa maravilhosa, foi um momento de muito cuidado comigo, muito fortalecedor, o Juninho me ajudou a resgatar a minha identidade, por muito tempo eu deixei adormecido um lugar que sempre foi meu, e é esse lugar que eu quero estar, entendi que não preciso me encaixar em um padrão para ser aceita, eu tenho meu lugar, hoje sei quem eu sou e minha verdadeira identidade”.

“Hoje eu entendo que fechei um ciclo, olha que ironia, quando criança sofri exatamente por usar um penteado que eram as tranças, e hoje percebo que sou livre para fazer o que eu bem entender, e fazer as tranças hoje me fez revistar aqueles momentos e entender que nunca houve nada de errado com elas, afinal nunca foi sobre elas em si, e sim minhas dores e feridas. E quando me olhei no espelho com as mesmas tranças, me emocionei, meus olhos brilharam e eu me vi de verdade, ressignifiquei anos de dor, de traumas e fechei esse ciclo, eu vi o quanto fiquei linda, o quanto transpareço minha força e minha real identidade” finaliza a estrategista de imagem e posicionamento.

O hair stylist Juninho Loes revela dicas de como fazer essa transição de forma segura para não danificar seu cabelo:

  1. Abandone as práticas químicas, para ver o seu natural se desenvolver;
  2. Foque no cuidado do cabelo mais novo, o mesmo irá compor sua identidade no futuro;
  3. Cuidado para não sabotar sua transição, tentando moldar o novo cabelo para parecer o mais próximo com o antigo, como, por exemplo, escovando, relaxando, etc. Tais práticas irão alterar a forma do seu natural;
  4. Mude todos os recursos que utilizava antes da transição, produtos específicos para crespos e cacheados, escovas específicas para crespos e cacheados, chapinha para secador e difusor entre outras ferramentas incluindo profissionais, buscar um especialista;
  5. Resista, a transição é dura, mas é libertadora.

Afro identidade na internet

Crédito: Getty Images

No geral, a internet oferece uma plataforma poderosa e acessível para promover a afro identidade, compartilhar histórias e experiências, educar, inspirar e promover a mudança social positiva.

Ivi Mesquita, Influenciadora e musa carnavalesca da Vai-Vai, revela algumas razões pelas quais essa divulgação na internet é importante:

“Na minha visão é fundamental para promover a representatividade e a valorização da cultura afro-brasileira, o respeito étnico-cultural, além de promover e celebrar a diversidade, mas também combatermos o racismo e fortalecermos a autoestima dos meus semelhantes afrodescendentes, contribuindo para uma sociedade mais inclusiva e justa”.

Ivi ainda diz que gosta de saber que pode corroborar com as experiências dela para outras pessoas, fazer com que se orgulhem de suas raízes, para promover uma sociedade mais justa, igualitária e respeitosa com todas as suas nuances culturais.

“No meu caso, pouco fiz ao longo dos anos neste espaço de redes sociais. Comecei a colocar meu rosto divulgando e entendendo a minha verdadeira importância para essa pauta nos anos em que passei, aliás, passamos na (pandemia), que tive tempo para refletir e saber mais de mim, da minha verdadeira caminhada e contribuição artística até aqui”, complementa a musa carnavalesca.

Neste momento de vida, Ivi conta que está trabalhando ano a ano sobre a importância de desmistificar a musa carnavalesca para fora dos espaços de escola de samba/carnaval.

A prova disso, foram os diversos convites para podcasts, entrevistas, programas de TV na sua própria página no Instagram.

“Quando comecei a falar e mostrar mais sobre a minha atuação como uma cidadã que ama o carnaval, flertar com o universo da moda e fazer encontros com amigos e pensadores sobre a pauta racial, que procuramos ainda hoje atalhos para viver em paz e com respeito, dia após dia!”, complementa.

Ainda como influenciadora e musa carnavalesca, ao destacar a Afro identidade nas redes, Ivi diz que não apenas celebra a riqueza e a diversidade cultural do nosso país, mas quer que todos tenham um comprometimento em saírem de suas bolhas e se tornarem ouvinte e entendedores de outras heranças culturais.

Já o ativista e hair stylist Juninho Loes revela como a variedade de recursos e plataformas pode ser utilizada para promover e divulgar a afro identidade através dos penteados e da autoafirmação da beleza negra:

“Representatividade importa, e a internet é uns dos melhores recursos para conexão identitária e informativa, por ela alcançamos vidas a km de distância gerando pertencimento e esperança”.

Na jornada rumo à igualdade e valorização da diversidade, os penteados afro emergem como uma poderosa ferramenta de expressão e resistência para a comunidade negra.

Além de exaltar a beleza dos cabelos naturais, eles carregam consigo uma carga de significado profundo, representando a afirmação da identidade e a celebração da herança cultural.

Neste Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial, é crucial reconhecer o papel central desses penteados na promoção da autoestima e na conscientização sobre a beleza negra.

Movimentos como Nunca Foi Só Cabelo e iniciativas individuais de aceitação capilar são exemplos vivos do poder transformador dessas manifestações culturais.

No entanto, a jornada rumo à plena igualdade está longe de ser concluída.

É fundamental que cada um de nós, independentemente de nossa origem étnica, se comprometa com a desconstrução dos padrões eurocêntricos de beleza e com a promoção de um ambiente onde todas as formas de identidade sejam valorizadas e respeitadas.

Somente assim poderemos construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde cada indivíduo possa se orgulhar de sua herança cultural e se sentir livre para expressar sua identidade plenamente.

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