Na edição de 2026 do British Academy Film Awards, um episódio inesperado chamou atenção durante a transmissão ao vivo da cerimônia.
Enquanto os atores Michael B. Jordan e Delroy Lindo estavam no palco para anunciar uma das categorias, um homem na plateia gritou uma ofensa racial em direção ao palco.
O autor do grito era o ativista John Davidson, que inspirou o filme “I Swear”, produção premiada que aborda sua experiência vivendo com a Síndrome de Tourette.
Como o momento foi captado pela transmissão, a cena repercutiu rapidamente nas redes sociais e provocou reações imediatas do público.
Minutos depois, o apresentador Alan Cumming pediu compreensão à plateia e explicou que a manifestação estava relacionada a tiques vocais involuntários associados à síndrome.
Em seguida, o próprio ativista se pronunciou publicamente, afirmando estar “profundamente mortificado” com a possibilidade de suas palavras terem sido interpretadas como deliberadas.
O episódio trouxe novamente à tona o debate sobre a coprolalia e reacendeu discussões sobre estigma, desinformação e os desafios enfrentados por pessoas com Tourette em contextos públicos.
Como parte da série do Jornal Folk sobre o tema, o Jornal Folk entrevista a Dra. Elaine Di Sarno, psicóloga, neuropsicóloga, mestre em Ciências pela USP e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), sobre os impactos sociais e emocionais da condição.
Victor Hugo Cavalcante: Existe hoje maior compreensão social sobre distúrbios neurológicos como a Tourette?
Dra. Elaine Di Sarno: Embora haja uma crescente conscientização, ainda há muito estigma e falta de compreensão, fazendo com que haja um longo caminho pela frente para a compreensão.
Victor Hugo Cavalcante: O que são exatamente os tiques motores e vocais?
Tiques motores são movimentos involuntários, como piscar os olhos ou fazer caretas.
Já os tiques vocais são sons ou palavras involuntárias, como grunhidos ou palavras inapropriadas (palavrões, xingamentos).
Victor Hugo Cavalcante: Até que ponto esses impulsos podem ser controlados?
Os tiques podem ser parcialmente controlados com técnicas de supressão, mas isso pode aumentar a ansiedade e o desconforto.
É preciso passar em consulta com um especialista para análise de caso a caso.
Victor Hugo Cavalcante: Situações de estresse ou exposição pública aumentam os tiques?
Sim, certamente o estresse e a exposição pública podem aumentar a frequência e a intensidade dos tiques.
Por isso, é muito importante o entendimento, empatia e respeito da sociedade em relação a essa questão.
Victor Hugo Cavalcante: O que é coprolalia e por que ela chama tanta atenção?
Coprolalia é o uso involuntário de palavras obscenas ou inapropriadas.
Ela chama atenção porque é um sintoma incomum e socialmente desconfortável.
É vista como falta de educação, falta de respeito, quando, na verdade, é uma condição bastante complexa e difícil.
Victor Hugo Cavalcante: Por que esse sintoma é mais raro do que a percepção popular sugere?
A coprolalia ocorre em cerca de 10% dos pacientes com Tourette, mas é amplamente divulgada na mídia, criando uma percepção distorcida, é o que mais chama a atenção da sociedade.
Victor Hugo Cavalcante: Quais tratamentos ou estratégias ajudam pacientes a lidar com a síndrome?
Tratamentos incluem terapia comportamental, medicamentos para reduzir tiques e técnicas de relaxamento.
A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é muito eficaz para gerenciar sintomas.
Victor Hugo Cavalcante: Por que a Tourette costuma ser reduzida ao estereótipo do “xingar involuntariamente”?
A mídia frequentemente foca na coprolalia, criando um estereótipo que não reflete a complexidade da síndrome.
Os xingamentos e palavrões geram uma reação negativa nas pessoas e acabam tendo muito destaque.
Victor Hugo Cavalcante: Como a mídia e o entretenimento representaram a síndrome ao longo do tempo?
A mídia retrata frequentemente a Tourette de forma sensacionalista e estereotipada, focando em aspectos dramáticos em vez da realidade dos pacientes.
Tratam, inclusive, como motivo de piada.
Victor Hugo Cavalcante: Que tipo de impacto psicológico episódios públicos podem causar em pacientes com Tourette?
Episódios públicos podem causar ansiedade, vergonha e isolamento social.
Victor Hugo Cavalcante: Qual é o maior equívoco que o público costuma ter sobre a Tourette?
O maior equívoco é acreditar que todos os pacientes com Tourette xingam involuntariamente, o que não é verdade para a maioria, e que muitos “fingem” ter Tourette ou que “não é bem assim” e que estão falando palavrões se aproveitando da condição.
Esse entendimento é um erro gravíssimo.
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