Em “Fios da história”, Célio Turino costura poesia entre as fraturas de uma ciência moderna marcada pela razão e pela sua separação categórica da subjetividade.
Nesta obra, os versos se tornam um espaço de expressão sobre política, coletividade e memória, como também se transformam em construção de saber e método de pensamento histórico.
Referência nacional em políticas culturais no Brasil, o ex-secretário da pasta no Ministério da Cultura vira um “poeta-historiador” na defesa de que história e poesia compartilham semelhanças fundamentais.
Ambas são narrativas capazes de organizar o tempo, selecionar discursos e disputar sentidos sobre o passado.
Por isso, podem ser utilizadas em conjunto, a favor do trabalho de produção de conhecimento.
Sem vínculo a uma escola poética, a obra é um manifesto crítico que atravessa alguns dos principais dilemas contemporâneos.
A superficialidade diante da inteligência artificial, a rotina adoecedora dos trabalhadores, o genocídio em Gaza e os conflitos sociopolíticos da imigração são alguns dos temas atuais abordados pelo autor.
“Nas histórias persistentes
o tempo é encontrado
no poço sem fundo
de um sistema que sufoca,
no grito seco,
no eco silencioso,
na dor que não se diz.
E o tempo apaga.
Até o historiador aparecer
para iluminar aquilo que o tempo apagou.”
(“Fios da história”, p. 217)
Com uma reflexão profunda sobre como a História está longe de ser linear e se aproxima, na verdade, de um labirinto, o livro retoma momentos marcantes do passado para narrar um tempo contínuo.
Ele transforma em poesia o movimento de 1917, quando mulheres protagonizaram a primeira greve do país em prol de direitos trabalhistas; o Rosa Branca, grupo de resistência na Alemanha nazista; e a luta diária de indígenas e negros para resistir em um país que os sacrificou devido ao discurso de “progresso”.
Os poemas exaltam a força das pessoas comuns que passaram despercebidas na História, mas que a construíram sem precisar de data, decreto, políticos, reis, guerreiros e profetas.
E é neste anonimato formado pela comunidade que Célio Turino percebe a possibilidade de transformação do mundo.
Na defesa de uma utopia criada por meio da poesia, o autor convida o leitor a esse sonho que foi e continua sendo ferramenta de revolução.
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