Para além do enredo e do entretenimento, o cinema configura-se como uma linguagem multimídia complexa e potente, que articula imagem, som, trilha sonora, fotografia, roteiro, direção de arte, montagem e atuação para construir sentidos.
Essa combinação de elementos permite o acesso a diferentes formas de expressão de um mesmo conteúdo, ampliando as possibilidades de compreensão e análise.
Ao mesmo tempo, cada obra audiovisual apresenta um recorte cultural específico sobre os temas abordados, refletindo contextos históricos, sociais e ideológicos.
Segundo Paulo Rogerio Rodrigues, coordenador pedagógico da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), é fundamental considerar, ainda, que todo filme carrega a visão particular de um diretor, de uma corrente estética ou de um gênero cinematográfico.
“Essa característica amplia o repertório interpretativo dos estudantes, pois os convida a comparar perspectivas, identificar intencionalidades, reconhecer escolhas narrativas e analisar como determinados recursos constroem significados. Esse exercício fortalece habilidades como leitura crítica, análise simbólica, argumentação e articulação de diferentes linguagens, competências essenciais para avaliações externas, especialmente o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).”
Na visão do educador da Aubrick, o contato sistemático e reflexivo com o cinema também estimula a criatividade.
A linguagem cinematográfica permite a construção de representações simbólicas ricas e provocativas, que dialogam diretamente com o universo de crianças e adolescentes.
Ao interpretar metáforas visuais, enquadramentos, trilhas sonoras e estratégias narrativas, o estudante amplia sua capacidade de abstração e de elaboração de ideias, aspecto fundamental na produção escrita.
Além disso, o cinema possibilita a retomada e a problematização de episódios históricos, movimentos culturais e interpretações literárias, contribuindo para a consolidação de um sólido arcabouço cultural.
“Filmes que abordam contextos históricos, por exemplo, podem aprofundar discussões iniciadas em sala de aula; adaptações literárias favorecem comparações entre linguagens; e obras que retratam transformações sociais ampliam o repertório sociocultural, elemento indispensável para a construção de argumentos consistentes na redação”, acrescenta.
Nesse sentido, o cinema não apenas complementa o trabalho pedagógico, mas o potencializa.
Ao dialogar com diferentes áreas do conhecimento, como História, Literatura, Filosofia, Sociologia, Artes e Linguagens, promove uma aprendizagem interdisciplinar e contextualizada.
“Para além do enredo, o cinema, enquanto linguagem multimídia, mobiliza diferentes formas de expressão e, por isso, estimula de maneira consistente o pensamento crítico, a interpretação de múltiplas linguagens e a leitura simbólica da realidade, competências amplamente exigidas no Enem. Ao consumir cinema de maneira reflexiva, o estudante aprende a identificar intencionalidades, reconhecer recortes culturais e analisar diferentes perspectivas sobre um mesmo tema, algo essencial para resolver questões interdisciplinares e construir uma redação consistente, com repertório sociocultural legitimado e articulado”, conclui Rodrigues.
Como o cinema já foi citado no ENEM?

Na edição de 2022, uma das questões abordou, por exemplo, o documentário “Elena”, de Petra Costa, obra em que a diretora brasileira resgata a trajetória de sua irmã, que se mudou para Nova York com o sonho de ser atriz.
Já na prova de 2023, o filme indiano “Como Estrelas na Terra” teve o seu cartaz e sinopse usados em uma questão de Espanhol para discutir a dislexia e como o olhar sensível de um professor de arte muda a vida do protagonista Ishaan. (Veja abaixo)

Na edição de 2025, quando o tema da proposta de redação foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, a atriz Fernanda Montenegro foi citada em um dos textos de apoio, mencionando suas memórias sobre habitar o tempo e a velhice com dignidade.

Filmes indicados ao Oscar 2026 que dialogam com o Enem
Entre as dezenas de produções cinematográficas indicadas ao Oscar 2026, cuja cerimônia acontece em 15 de março, o docente da Aubrick elenca 10 delas, que podem servir como ferramenta estratégica de estudo, ampliando o repertório sociocultural dos candidatos e fortalecendo a capacidade de argumentação exigida no exame.
O agente secreto — Direção: Kleber Mendonça Filho (4 indicações)
Marcelo, um especialista em tecnologia acusado de atividades subversivas, muda-se de São Paulo para Recife em 1977, na tentativa de escapar dos agentes do governo.
Ele chega à capital pernambucana e, em pouco tempo, começa a desconfiar que está sendo espionado por seus vizinhos.
O filme representante do Brasil na premiação concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Elenco e Melhor Ator para Wagner Moura.
O filme dialoga com a ditadura militar, repressão política, direitos humanos e vigilância do Estado, temas recorrentes em História, Sociologia e na redação do Enem.
Alabama: presos do sistema — Direção: Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman (1 indicação)
Filmado com celulares contrabandeados, o documentário oferece uma perspectiva chocante da corrupção, violência e resistência prevalecentes em um dos sistemas prisionais mais perigosos dos EUA.
O filme aborda o sistema prisional, desigualdade racial e social, violência institucional e cidadania, conteúdos frequentes em Ciências Humanas e temas sociais da redação.
Avatar: fogo e cinzas — Direção: James Cameron (1 indicação)
Após a devastadora guerra contra a RDA e a perda do seu filho mais velho, Jake Sully e Neytiri devem enfrentar uma nova ameaça: o Povo das Cinzas, uma nova e agressiva tribo Na’vi, conhecida por sua violência extrema e sede de poder.
O misterioso clã é composto por guerreiros que controlam o fogo e cuja lealdade pode desequilibrar o destino do planeta.
O filme explora o meio ambiente, exploração de recursos naturais, conflitos culturais e colonialismo, assuntos cobrados em Geografia, Biologia e na redação.
F1: O filme — Direção: Joseph Kosinski (4 indicações)
Sonny Hayes foi o fenômeno mais promissor da Fórmula 1 da década de 1990, até um acidente na pista.
Trinta anos depois, seu ex-companheiro de equipe, Ruben Cervantes, o convence a voltar e pilotar ao lado do estreante Joshua Pearce e assim ter sua última tentativa de ser o melhor do mundo.
O passado de Sonny o persegue e ele descobre que não se pode trilhar o caminho para a redenção sozinho.
O filme trata de superação, ética, trabalho em equipe e pressão psicológica, temas ligados à Educação Física, Filosofia e competências socioemocionais.
Foi apenas um acidente — Direção: Jafar Panahi (1 indicação)
Quando o mecânico Vahid encontra por acaso o homem que acredita ter sido seu torturador na prisão, ele o sequestra, decidido a se vingar.
Mas a única pista sobre a identidade de Eghbal é o som peculiar de sua perna protética.
Vahid então recorre a um grupo de outras vítimas libertas em busca de confirmação, e o perigo só aumenta.
O filme discute tortura, justiça, vingança e memória coletiva, conectando-se a direitos humanos, ética e contextos autoritários cobrados no Enem.
Hamnet: A vida antes de Hamlet — Direção: Łukasz Żal (8 indicações)
O filme conta a poderosa história de amor e perda que inspirou a criação da obra-prima atemporal de William Shakespeare, Hamlet.
Agnes, esposa do escritor, luta para suportar a dor da perda do filho, Hamnet.
O filme relaciona literatura, memória, luto e relações familiares, dialogando com linguagens, literatura e análise simbólica de narrativas.
Se eu tivesse pernas, eu te chutaria — Direção: Mary Bronstein (1 indicação)
Linda é uma mãe que se vê à beira de um colapso, ao lidar com a doença misteriosa da filha, a ausência do marido e o desmoronamento de seu próprio teto; o que a força a viver com a filha num motel.
Ela não encontra apoio em ninguém, nem mesmo no terapeuta, que é hostil, e precisa lidar com a frustração, o desespero e o isolamento crescentes, numa tentativa de resolver os problemas que a cercam.
O filme aborda saúde mental, vulnerabilidade social, maternidade e exclusão, assuntos presentes em Ciências Humanas e propostas de redação.
Sonhos de trem — Direção: Clint Bentley (3 indicações)
Um lenhador leva uma vida tranquila enquanto lida com o amor e a perda em uma época de profundas transformações nos Estados Unidos do começo do século XX.
O filme retrata transformações sociais, trabalho e modos de vida no início do século XX, dialogando com História, Geografia e leitura histórica contextualizada.
Uma batalha após a outra — Direção: Paul Thomas Anderson (13 indicações)
Um revolucionário fracassado que vive isolado com a filha luta para achá-la após ela desaparecer, ambos enfrentando as consequências do passado dele.
O filme discute consequências do passado político, militância, responsabilidade e relações familiares, temas ligados à cidadania e ética social.
Valor sentimental — Direção: Joachim Trier (9 indicações)
As irmãs Nora e Agnes reencontram seu pai distante, o carismático Gustav, diretor outrora renomado que oferece a Nora um papel naquele que espera ser seu filme de retorno.
Quando Nora recusa a proposta, descobre que ele deu o papel a uma jovem estrela de Hollywood, ambiciosa e entusiasmada.
De repente, as duas irmãs precisam lidar com a complicada relação com o pai e com a presença inesperada de uma atriz americana inserida bem no meio das complexas dinâmicas familiares.
O filme aborda relações familiares, identidade, frustrações e o papel da arte, conectando-se à Filosofia, Sociologia e Linguagens.
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