Em uma sociedade que valoriza desempenho, excelência e resultados visíveis, errar tornou-se quase uma falha moral.
Desde a infância, muitos aprendem que amor e aprovação estão condicionados à performance.
A consequência, muitas vezes silenciosa, é a autodepreciação crônica e a sensação persistente de nunca ser suficiente.
É nesse terreno psicológico que se constrói “Nos Reflexos do Mármore”, romance de Victor Hugo Cavalcante.
A obra acompanha Clara Torres Terreno, artista que retorna à cidade natal após receber uma crítica incisiva: sua produção seria bela, tecnicamente precisa, mas incapaz de revelar algo verdadeiro.
A crítica não atinge apenas sua arte, ela ecoa uma formação marcada pela rigidez dos pais, pela exigência constante e pela internalização de padrões inalcançáveis.
Clara não aprendeu apenas a buscar perfeição; aprendeu a duvidar de si mesma.
No galpão herdado da avó, entre sessões de terapia e o contato com o mármore bruto, a protagonista começa a perceber que sua arte refletia exatamente aquilo que a moldou: dureza, contenção, superfície polida.
Em um dos trechos centrais do livro, a metáfora se explicita:
“A pedra, dura e resistente, parecia desafiar e ensinar ao mesmo tempo.
— Percebe como o material é rígido, mas também responde? — perguntou Elaine, suavemente, aproximando-se um pouco mais.
— Assim é a vida — murmurou Clara, quase para si: — Parece intransponível, mas com cuidado podemos começar a moldar, transformar e descobrir caminhos.”
(Nos Reflexos do Mármore, p. 53–54)
A pedra torna-se espelho e sua resistência simboliza estruturas emocionais consolidadas ao longo dos anos: medo de falhar, necessidade de aprovação, silêncio afetivo.
Ao contrário de narrativas que tratam a arte como abrigo, o romance propõe um movimento mais incômodo: a arte como revelação.
Esculpir não é apenas produzir forma; é remover excessos, expor fissuras e aceitar imperfeições.
Reconstruir o galpão da avó é, simultaneamente, reconstruir a própria identidade.
Cada golpe na pedra representa um enfrentamento interno e a estética deixa de ser máscara e se transforma em confissão.
O livro também dialoga com um debate contemporâneo: até que ponto a busca por excelência esvazia a autenticidade?
Em uma cultura que premia resultados visíveis, revelar fragilidade pode parecer fracasso.
No entanto, é justamente nessa exposição que reside a possibilidade de verdade.
“Nos Reflexos do Mármore” não oferece soluções fáceis nem discursos motivacionais.
Ele aponta para algo mais desconfortável: reconhecer que a rigidez que nos protege pode ser a mesma que nos aprisiona.
Se a infância ensinou Clara a endurecer, a arte lhe ensina a revelar.
E nessa revelação, que desmonta, confronta e expõe, reside a possibilidade real de transformação.
“Em um tempo que celebra superfícies impecáveis, o romance sugere uma inversão necessária: talvez não seja a perfeição que nos salva, mas a coragem de mostrar as nossas fissuras”, explica o autor.
Continue navegando pelo Jornal Folk e descubra conteúdos que inspiram, informam e conectam diferentes realidades.






