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Os desafios da escuta ativa em tempos digitais

Em um mundo digital que valoriza mais falar do que ouvir, descubra como a escuta ativa se torna essencial para conexões reais e o fortalecimento da empatia.

Imagem ilustrativa de uma mulher que grita sendo ignorada por uma criança no celular.

A tecnologia revolucionou como nos comunicamos.

Redes sociais, mensagens instantâneas e inteligência artificial nos permitem interagir de maneira rápida e global.

No entanto, essa conectividade intensa muitas vezes transforma a comunicação em monólogos digitais, onde todos querem ser ouvidos, mas poucos realmente escutam.

A comunicação sempre foi a base das civilizações, vejamos como exemplo a Grécia Antiga, onde Sócrates usava o diálogo para promover o pensamento crítico, até as culturas indígenas, que valorizam a tradição oral para transmitir conhecimentos, a escuta teve um papel fundamental na construção do entendimento mútuo.

Mas, na era digital, a pressa por respostas instantâneas e a necessidade de exposição reduzem o espaço para a verdadeira escuta.

Nesse cenário, a escuta ativa se torna uma habilidade essencial para relações mais saudáveis, tanto no ambiente familiar quanto no social.

Mas o que realmente significa ouvir ativamente?

Para o psicólogo Evaldo Botazzo, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e psicoterapia sistêmica familiar, “a escuta ativa vai além de simplesmente ouvir palavras. Envolve atenção genuína, empatia e a capacidade de compreender o outro sem interrupções ou julgamentos. Quando praticamos a escuta ativa na família, fortalecemos laços, criamos um ambiente seguro para o diálogo e evitamos desentendimentos. Na sociedade, essa prática nos torna mais tolerantes e melhora a convivência, já que promove respeito e compreensão mútua”.

Botazzo ainda comenta que “por outro lado, a comunicação falha pode se manifestar de diversas formas. Os sinais mais comuns incluem interrupções constantes, respostas automáticas sem conexão real com o que foi dito, falta de contato visual, impaciência e tom de voz agressivo ou indiferente. Quando esses elementos se tornam rotina, as relações se desgastam e surgem conflitos desnecessários”.

Para ele, investir na escuta ativa é um passo fundamental para transformar relações e construir um ambiente mais harmônico, seja em casa, no trabalho ou na sociedade.

Afinal, quem aprende a ouvir aprende a se conectar de verdade.

Redes sociais, monólogos digitais e o futuro da comunicação

A internet permitiu uma revolução na forma como nos comunicamos, proporcionando interações globais instantâneas.

No entanto, essas ferramentas também têm gerado um fenômeno preocupante: monólogos digitais, onde a necessidade de expressar-se sobrepõe à disposição para ouvir.

Wagner Batizelli, especialista em comunicação e marketing, com mais de 12 anos de experiência em comunicação corporativa, escrita e performance digital,analisa essa questão.

“A tecnologia trouxe avanços incríveis na comunicação, permitindo conexões instantâneas e globais. No entanto, a comunicação mediada por telas ainda tem limitações quando comparada à interação presencial. Elementos essenciais da comunicação, como linguagem corporal, tom de voz e contato visual, muitas vezes são reduzidos, impactando a escuta ativa. Além disso, a distração constante causada pelo ambiente digital pode comprometer a atenção plena durante as conversas, reduzindo a profundidade das interações e, consequentemente, a qualidade do entendimento e da empatia”, comenta o sócio da Agência 2205wv.

Ele ainda responde como as redes sociais influenciam a maneira como as pessoas se expressam e interpretam mensagens:

“As redes sociais moldaram a comunicação, tornando-a mais ágil e acessível, mas também mais superficial e polarizada. O formato breve e instantâneo das plataformas incentiva a simplificação de mensagens complexas, reduzindo nuances e promovendo interpretações precipitadas. Além disso, o consumo acelerado de informações e a cultura da resposta imediata podem comprometer a escuta ativa, fazendo com que as pessoas reajam antes de compreender completamente o que foi dito. É preciso encontrar o equilíbrio, humanizando as redes sociais e fazendo com que a interpretação emocional possa estar presente”.

Além disso, será que o alto volume de informações que consumimos diariamente e a exigência de processamento rápido podem comprometer nossa capacidade de escuta ativa, comunicação profunda e empatia?

Para o especialista em inovação, tecnologia e acessibilidade Thierry Cintra Marcondes, a comunicação digital está passando por uma transformação significativa.

“Estamos em uma era de transição, onde tudo parece caótico, fragmentado e explícito. No entanto, acredito que as tecnologias, especialmente a inteligência artificial, têm o potencial de nos ajudar a comunicar melhor”, complementa.

Ele ainda comenta que, historicamente, a comunicação vinha de quem tinha privilégio, quem era o vencedor da história e quem era bem-instruído.

Já hoje, a inteligência artificial pode dar voz a todas as pessoas.

“Imagine uma pessoa semianalfabeta da periferia, que pode se expressar com suas lições e aprendizados, ou alguém em estado vegetativo, ou com dificuldade de fala, que pode encontrar apoio na tecnologia para se comunicar. A IA pode ajustar e aprimorar a comunicação, proporcionando uma plataforma inclusiva para todos”, exemplifica.

“Além disso, as redes sociais e a maneira como armazenamos e distribuímos informações podem preservar histórias, culturas e boas práticas, alcançando mais pessoas e proporcionando recursos valiosos”, complementa o especialista. 

Por outro lado, para Thierry Marcondes, se não colocarmos as pessoas no centro e ensinarmos como utilizar essas tecnologias, podemos criar uma geração cada vez mais dependente da IA para se expressar.

“A IA democratizará a comunicação, mas também poderá aumentar o gap social se não tomarmos certos cuidados”, enfatiza.

Por isso, é essencial equilibrar o uso da tecnologia com a promoção de habilidades de comunicação e escuta ativa.

Outro ponto crítico observado é que vivemos na chamada “economia da atenção”, onde estímulos constantes competem por nossa capacidade de concentração.

“Com tecnologias que bloqueiam ruídos ou focam nossa atenção, podemos melhorar a escuta e a comunicação. Hoje, recebemos tantos estímulos e tanta ansiedade que acabamos interrompendo e não esperando nosso momento. A escuta ativa deve ser parte da nossa cultura e ensino, para podermos usar a tecnologia de forma saudável e equilibrada. Portanto, vejo um caminho para integrar a tecnologia de maneira saudável, promovendo a educação midiática e usando a IA para amplificar a empatia e o entendimento mútuo. Precisamos garantir que a humanidade esteja no centro dessa transformação, criando um futuro onde a comunicação digital seja inclusiva e profunda”.

A literatura e a educação como serventia da boa comunicação ativa

Lançamento do livro As novas aventuras de Vinicinhos na Livraria do Jardim em Recife em 2024. Crédito: Divulgação.

Como podemos usar a educação e a arte para aprimorar a escuta ativa e garantir que as pessoas continuem no centro dessa evolução?

A nordestina Vanessa Bandeira encontrou na literatura uma forma de resgatar essa atenção e a criatividade das crianças em um mundo cada vez mais dominado pelas telas.

O livro As novas aventuras de Vinicinhos, publicado pela Editora Mágico de Oz, nasceu de um desejo genuíno da autora: ensinar seus filhos a observar, imaginar e criar, em vez de apenas consumir conteúdos digitais.

“Meu intuito era fazer com que eles criassem sua própria história, com suas próprias palavras e seus próprios desenhos, recriando suas inspirações imaginárias. Queria que entendessem o significado de Deus, amizades sinceras, obediência, respeito, empatia e valorização do meio ambiente e da sociedade. Busquei tirá-los do celular e fazê-los ver o mundo através da escrita”, relata a autora.

Ao transformar seus filhos em protagonistas da história, Vanessa não apenas incentivou a criatividade, mas também reforçou a importância de ouvir, refletir e construir narrativas próprias, uma habilidade essencial para qualquer boa comunicação.

Para o pedagogo David Santos, formado em Recursos Humanos, pós-graduado em Psicologia Organizacional e Bacharel em Pedagogia, a educação formal também tem um papel fundamental nesse processo:

“A comunicação interpessoal já está inserida de maneira estruturada no currículo da Educação Básica, conforme a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), que reconhece a comunicação como uma competência essencial. Ela é trabalhada, principalmente, nas aulas de Linguagem e suas tecnologias, visando capacitar os estudantes a se expressarem de maneira eficaz e promover o entendimento mútuo. No entanto, a comunicação interpessoal vai além de aspectos técnicos e envolve habilidades socioemocionais, como simpatia, empatia e respeito”.

Ainda segundo Santos, “no contexto atual, as redes sociais trouxeram à tona uma questão relevante: a dificuldade em manter uma comunicação respeitosa e empática no ambiente digital. A educação formal, portanto, precisa ir além do conteúdo técnico e desenvolver essas habilidades no ambiente escolar. Isso se dá por meio de metodologias e atividades intencionais, como o desenvolvimento da oralidade nas aulas de Língua Portuguesa, e práticas que favorecem a escuta ativa, como o respeito aos turnos de fala e a atenção ao interlocutor”.

Ele finaliza dizendo que as habilidades socioemocionais, fundamentais para uma boa comunicação interpessoal, são previstas na BNCC, mas sua implementação depende de uma abordagem prática por parte das escolas.

“É essencial que, além da formação dos professores, haja programas específicos de intervenção, acompanhamento psicológico e a colaboração entre a escola e as famílias”.

Mas como fazer essa implementação?

O especialista dá as dicas:

“Para trabalhar a escuta ativa, é importante que a escola promova atividades que estimulem a atenção e o respeito ao outro, como dinâmicas lúdicas no Ensino Fundamental, seminários e debates no Ensino Médio. Esses métodos contribuem para o desenvolvimento de competências socioemocionais, essenciais para uma comunicação eficaz e empática, tanto no ambiente escolar quanto nas interações digitais”.

Assim, para que a escuta ativa se torne um pilar sólido da comunicação no mundo digital, é essencial unir esforços entre educação, tecnologia e relações interpessoais.

Afinal, se, por um lado, a tecnologia pode afastar as pessoas de diálogos profundos, por outro, também pode ser usada como ferramenta para fortalecer a empatia e o entendimento mútuo.

Portanto, investir na formação socioemocional desde a infância e incentivar práticas que valorizem a escuta são passos fundamentais para construir um futuro digital mais equilibrado e humano.

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