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Irmãos lançam livros que dialogam com nosso tempo

Roberta e Teofilo Tostes trabalham suas escritas poéticas em O poeta toma a pólis e Corpo-esconderijo para poder digerir, habitar e transformar o mundo.

Foto dos escritores Roberta e Teofilo Tostes.

Há livros que dialogam de forma tão intensa com seu tempo histórico que, além de fornecerem testemunho de experiências, conseguem antecipar desafios, construir sentidos e, por vezes, resgatar alguma esperança, ao estabelecerem as bases de um diálogo capaz de promover o encontro, ainda que no terreno do simbólico, no espaço literário.

A partir de abordagens diferentes, as novas obras dos irmãos Roberta e Teofilo Tostes Daniel conseguem dividir com o leitor ferramentas para digerir, habitar e transformar o mundo, com seus desafios e complexidades.

O poeta toma a pólis, de Teofilo, lançado em meados de 2023, tem uma abordagem declaradamente política.

Ao se opor à proliferação de discursos de ódio, rememorar os traumas da pandemia e exaltar a diversidade e a resistência, os versos deste livro acabam esboçando uma resposta sobre por que a poesia ainda importa no mundo contemporâneo.

No entanto, a escrita poética permite que testemunhos do passado ganhem novos sentidos com acontecimentos recentes.

Dessa forma, é impossível não pensar na tragédia climática que se abate hoje sobre o sul do país, ao lermos os versos “Vi que a fúria da água é incontida. / Ela invade em silêncio a concretude / de paredes. Alastra-se amiúde. / Não encontra represa nem na vida.”.

Neste livro, Teofilo se lança ao mundo apostando no poder transformador do choque entre vivências e visões de mundo diferentes.

A escrita, então, parece resultar do movimento do corpo no mundo, como ocorre no poema que dá título à obra, onde lemos que “Hordas da ordem, em vão, / tentam adestrar o poeta / e cortar-lhe a peçonha da língua, // mas seu verbo se alastra / como fogo em planícies / secas de tanta razão. // O poeta toma a pólis.”.

Já em seu corpo-esconderijo, publicado em janeiro deste ano, a escrita de Roberta surge como um processo de digestão do mundo no corpo.

Um corpo que abriga alguns desvios, como o fato de ser o corpo de mulher, numa sociedade dominada pelo masculino, e por ser um corpo neurodivergente, a poeta aponta que o diagnóstico tardio de TEA (Transtorno do Espectro Autista) foi uma experiência fundante para a escrita deste seu terceiro livro. E a digestão poética de certas experiências pode levar décadas, como vemos neste trecho do poema Coisas postas diante de mim:

“Tenho dois anos. / Estou no colo da Izilda / minha babá. / Sou um bebê pobre / mas de pele branca. / Um bebê pobre / de pele branca / pode ser um bebê / com babá.”.

Como se percebe, ter a subjetividade como ponto de partida, numa escrita na qual tudo o que é externo se incorpora ao mundo interno, que antropofagicamente digere as experiências, não afasta da escrita sua dimensão política.

Isso fica evidente quando Roberta escreve “o meu corpo / fêmeo que sangra / que não é negro / que é preciso dizer / se abrir para parir / que se viola / que se abusa / que é o corpo de mulher / mas o corpo da mulher / branca, que não labora / um terço do corpo negro / que é um corpo social / com privilégios sociais (…) / é um corpo aberto / é um corpo histórico / um corpo se abre / para nascer lutar”, num poema em memória de Marielle Franco.

Os dois irmãos, por fim, na diversidade de suas vozes e vivências, celebram o tempo transformador em que seus corpos e memórias se conectam ao coletivo, pelo poder da palavra de reverberar os desafios e as esperanças de uma sociedade em constante transformação.

É o que vemos, por exemplo, nestes versos do poema que dá título ao livro de Teofilo:

“A voz do outro tomando / posse de minha poesia / me lembra que minha escrita / respira fora de mim.” E também em poemas como “Eu não sei dançar tão devagar”, em que Roberta fala da experiência de mergulhar no campo ao mesmo tempo simbólico e concreto de transformação: “aprender o gregário pelo desejo / comum. // A poesia, um ponto / de mutação – convergência / onde o absolutamente pessoal / pode ser outro.”.

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