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Liniane H. Brum bate-papo sobre novo livro

Conversamos com a escritora sobre A Hospedeira, centrada na aventura de Basílio e da gata Pretinha, que marca sua estreia no universo literário infantil.

Foto da escritora e entrevistada Liniane Haag Brum.

Basílio ouve uma voz no jardim de casa, a pedir socorro: é Pretinha, a gata pequenina que às vezes fala, e quando fala, recita poemetos, mas, às vezes, se cala.

O garoto leva o bichinho para morar no seu quarto sem o conhecimento da mãe.

A confusão começa quando ela descobre que a gata, além de dormir no quarto do filho, participa das aulas online ao lado dele.

Ela fica uma fera, briga com Basílio, o animal se assusta e foge.

O protagonista decide ir embora com o felino e a fuga, então, vira aventura: Basílio e Pretinha saem sem rumo pela cidade…

Essa é a sinopse oficial do livro infantil A Hóspede, estreia literária de Liniane Hag Brum na literatura infantojuvenil.

Além deste, Liniane é autora de Antes do Passado — O silêncio que vem do Araguaia (Arquipélago, 2012) e Pós-paisagem (Telucazu, 2022), entre outros.

Agora, a autora revela um pouco para a gente sobre esta estreia literária, suas influências, projetos e muito mais.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro é um prazer recebê-la no Jornal Folk, e gostaria de começar com a seguinte pergunta: A Hóspede marca sua estreia na literatura infantojuvenil. O que a motivou a escrever para esse público específico e quais foram as suas influências literárias na sua infância?

Liniane Haag Brum: A Hóspede surgiu de uma forma inusitada.

Era o ano de 2021 e estávamos na pandemia, um período, como sabemos, de grande retração econômica, que afetou especialmente artistas e agentes culturais.

Foi nesse contexto que um amigo me desafiou: “por que você não escreve um livro infantil?”.

Ele prestava serviço para a indústria moveleira gaúcha, tinha conhecimento dos investimentos desse setor nas leis de incentivo à cultura estaduais e o interesse, em particular, de uma empresa de móveis em literatura infantil.

Aceitei o desafio e redigi as primeiras páginas do que seria A Hóspede, também projetando o livro que abrigaria essa história.

Em resumo, o projeto nunca foi para a frente, mas ao fim de conversas e trocas com Víctor, o amigo que me desafiou, eu tinha um belo começo de história e a chama da produção criativa acesa.

Foi durante esse processo que concebi as personagens Basílio e Pretinha, o menino e a gatinha, e daí para frente tudo foi muito fluído.

Um processo longo, mas muitíssimo fluído.

Victor Hugo Cavalcante: Como surgiu a ideia da trama de A Hóspede e qual é a mensagem principal que você espera transmitir aos jovens leitores?

Há muito tempo eu queria escrever uma história envolvendo gatos, para ser mais precisa, desde que adotei a minha primeira gata, a Olga.

Lembro que já em 2013 essa vontade se tornou muito clara para mim. Foi também naquele ano que comecei a colecionar livros sobre gatos.

Poesia, foto-álbuns, prosa, infantojuvenis, entre outros.

Quando em 2022 sentei para escrever o tal livro infantil, a trama foi se relevando para mim, como algo que estivesse há tempos só aguardando para ser narrado.

Parece um lugar-comum de escritor essa declaração, mas foi bem assim.

Para os leitores quis transmitir os sentimentos de amorosidade e amizade, mas não de uma maneira rasa ou que culminasse com um final feliz fechado.

Despertar para a prática da alteridade também foi uma intenção.

Victor Hugo Cavalcante: Os personagens de A Hóspede, especialmente a gata (Pretinha) e a criança (Basílio), parecem ter uma relação especial. Pode nos contar mais sobre como desenvolveu esses personagens e a dinâmica entre eles?

Retomei o capítulo que havia escrito em 2021, em 2022, depois de receber o fomento do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo na categoria literatura infantojuvenil.

Esse apoio foi fundamental para que eu pudesse dar contorno aos personagens, pesquisando não apenas nesse grande repositório que é a imaginação, mas também tendo tempo e condições de errar e corrigir à observação da realidade, do cotidiano mesmo.

As vozes de Basílio e Pretinha surgiram tão logo comecei a escrevê-las, mas mantê-las não foi um processo rápido.

Escrevi e reescrevi os diálogos muitas vezes.

Quanto à gata, procurei imaginar o que poderia dizer um gato, se falasse.

Se ele quisesse, em linguagem verbal, contar a nós humanos seus sentimentos.

Daí veio a ideia de aproximação da felina e do menino a partir da fala da primeira, mas não uma fala lógica e correta, mas encantatória.

Todos sabemos que crianças adoram bichos, daí também imaginar e representar Basílio “embarcando” imediatamente naquilo que Pretinha lhe dizia.

Dizia e fazia sentir.

O principal, no caso, era conseguir que essa interação amorosa entre eles fosse também verossímil aos olhos e ouvidos do leitor.

Victor Hugo Cavalcante: No seu livro infantojuvenil A Hóspede, a gatinha Pretinha se expressa através de pequenos versinhos, enquanto os demais personagens falam normalmente. Qual foi a sua inspiração para dar essa característica única à gatinha e como você acredita que isso enriquece a experiência de leitura para as crianças?

Creio que respondi, parcialmente, na pergunta passada, a questão de como surgiram os poemetos.

Em A Hóspede a linguagem é tão importante quanto a narrativa.

Os poemetos atuam no sentido da composição artística do texto.

Não é o único elemento que tem essa função, o sonho de Basílio, por exemplo, é também uma estratégia composicional em uma história que não se pretende “pedagógica”, mas poética e assentada na estética.

A literatura é uma forma infantil do brincar.

Acredito na sua contribuição para a saúde mental, emocional e mesmo física das crianças (lembremos que quando estão lendo um livro, provavelmente estão longe das telas dos celulares).

Victor Hugo Cavalcante: A Hóspede foi selecionado para publicação e lançamento pelo ProAc. Como foi esse processo de seleção e qual a importância desse apoio para a realização de projetos literários dos escritores brasileiros?

O ProAC é um fomento importantíssimo.

Longevo, ele permite, se não me engano há 23 anos, o desenvolvimento de escritores e artistas das mais variadas áreas, em diferentes estágios de carreira (estreante, em desenvolvimento, consolidados).

Trata-se de uma iniciativa que também chancela o autor e prevê o escoamento de sua produção para a sociedade civil, uma vez que, no caso da literatura, além das contrapartidas, há o imperativo da publicação e da divulgação (a qual pode dispor de recursos o fomento).

Quanto à seleção, de novo no caso da literatura, é aberta a todos os autores, publicados ou não.

É preciso mandar um projeto técnico, onde se inclui um trecho da obra a ser desenvolvida; posteriormente, uma banca composta pela Secretaria da Cultura analisa a proposta de acordo com critérios expostos no edital.

No caso, A Hóspede foi classificada em primeiro lugar na sua categoria.

O ProAC, como todos os fomentos longevos e estruturados, leva à consolidação de carreiras, ao enriquecimento cultural e ao fortalecimento da cadeia produtiva da cultura.

Victor Hugo Cavalcante: Você já possui uma trajetória consolidada com obras como Antes do Passado e Pós-paisagem. Como foi a transição da escrita de literatura adulta para a infantojuvenil e quais foram os principais desafios e prazeres de escrever para esses públicos diferentes?

Ao longo de meu percurso como autora, descobri que a minha questão com a escrita não é tanto a escolha ou o encaixe em um, ou mais gêneros.

O que move a minha autoria é trabalhar o texto com emotividade, captar com as palavras o pulso de emoções, as conexões humanas, etc.

Essa é a tônica do meu trabalho.

Sempre é um desafio ser fiel ao texto que deve ser escrito, deixar, vamos colocar assim, as convenções e o autocentramento autoral de lado.

Quando isso acontece, quando o texto flui com autenticidade, a conexão com os leitores potenciais e efetivos acontece.

E não há nada mais gratificante do que isso.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são seus planos na literatura? Pretende continuar explorando o universo infantojuvenil ou já tem outros projetos em mente?

Estou trabalhando há muitos anos no que, inicialmente, seria uma espécie de continuidade do Antes do Passado — O silêncio que vem do Araguaia.

Espero terminar essa narrativa em breve.

A partir da experiência com A Hóspede penso em avançar na literatura infantojuvenil, mas ainda não tenho data para isso.

Atualmente me dedico à crônica, gênero que permite uma comunicação mais rápida com o leitor, podendo ser publicada das redes, tanto quanto em livros e impressos.

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