O escritor Cesar Augusto de Carvalho, nascido em Pompeia–SP, é professor de sociologia aposentado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) — Paraná.
Autor de prosa ficcional e ensaios, publicou Viagem ao Mundo Alternativo: a contracultura nos anos 80 (contos, Unesp, 2008); Toca Raul (contos, crônicas e radionovela, Independente, 2014); Histórias de Quem (contos, Desconcertos, 2020), Raul & Eu (novela, Cintra, 2022); Lado B (contos, Laranja Original, 2022) e Folhetim (Laranja Original, 2024) e como poeta publicou Proesia (Independente, 2013); Lavras ao Vento, Pá (Benfazeja, 2017) e Curto-circuito (Patuá, 2019).
Vários de seus contos foram publicados em jornais e revistas; participou de antologias poéticas, além de organizar muitas outras, a exemplo de Antologia Gente de Palavra Paulistana (Patuá, 2023), nome homônimo ao Sarau do qual é curador, em São Paulo.
Além disso, criou juntamente ao poeta Hamilton Faria o Canal do Poetariado, programa mensal de entrevistas com poetas veiculado pelo YouTube e Facebook.
Segundo o autor, que iniciou a carreira como cronista e pesquisou a contracultura, a atividade com os roteiros de cinema tem bastante influência sobre sua escrita.
E é justamente sobre sua escrita e seu livro recente (Folhetim) que nós conversamos nesta entrevista exclusiva.
Victor Hugo Cavalcante: Primeiro, agradecemos por nos conceder essa entrevista e gostaríamos de perguntar: Seus contos no livro Folhetim brincam com a linha tênue entre o real e o absurdo. Existe algum momento da sua vida em que você sentiu que estava em uma de suas próprias histórias?
Cesar Augusto de Carvalho: Agradeço o convite, é sempre um prazer conversar sobre literatura.
Respondendo à sua primeira pergunta, digo que nunca me senti dentro de minhas próprias histórias.
Uma ou outra pode até partir de situações que tenha vivido, mas, ao escrevê-la, este nexo com a realidade se perde e o próprio ponto de partida se torna irreal.
Um único momento em que acreditei estar vivendo em uma história, aliás, até hoje não contada, qualquer dia a escrevo, foi quando criança e tive um sonho tão real que acreditei que estivesse dentro dele.
Coisa típica, como você pode ver, de uma criança que ainda não consegue discernir a realidade do sonho.
Quando escrevo, procuro sempre ser essa criança.
Victor Hugo Cavalcante: O conceito de mise en abyme é central em Folhetim. Como essa técnica narrativa reflete sua própria visão de mundo e de memória?
Sim, não só em Folhetim, mas também em outros livros meus, utilizo muito essa técnica narrativa.
A aprecio muito e tem, sim, a ver com minha visão de mundo.
Até porque a história individual de cada ser humano é a repetição das histórias arquetípicas que vivemos, apesar de cada uma delas adquirir a historicidade e a particularidade de cada momento, como, aliás, já nos ensinavam C.G. Jung e Joseph Campbell em seus livros.
Victor Hugo Cavalcante: Em um mercado literário cada vez mais voltado para narrativas diretas e funcionais, você escolheu o nonsense e a experimentação para o livro Folhetim. Qual foi o risco e a recompensa dessa escolha?
Apesar de apreciar narrativas diretas e funcionais na literatura, sempre preferi, desde criança, as literaturas fantásticas e as que privilegiam o nonsense.
Por outro lado, quando decidi me tornar escritor, achei que minha contribuição seria melhor se focada na experimentação e no nonsense, até porque, acredito que o poder das histórias, quando elas se utilizam de símbolos e arquétipos, tem um maior potencial de penetrar na mente do leitor e fazer com que ele reflita sobre si.
Não à toa, muitos estudos na área da psicologia e psicanálise confirmam que contar histórias é uma forma terapêutica da criança e, por que não, do adulto, ter um diálogo mudo com seu próprio inconsciente.
O risco dessa opção é ter menos reconhecimento dos leitores, em compensação, a recompensa é quando meus leitores comentam que minha literatura o faz pensar.
Quer melhor recompensa?
Victor Hugo Cavalcante: Seu trabalho transita entre literatura, poesia e roteiro. Como essas diferentes formas de escrita dialogam entre si na sua criação literária?
Para ser sincero, não sei lhe dizer como essas formas de escrita, literatura, poesia e roteiro, dialogam na minha criação literária, até porque, na hora de escrever, as palavras fluem a partir das situações que quero criar e nelas mergulho.
Por outro lado, acho inevitável essa intersecção, até porque, durante um bom tempo de minha vida, escrevi roteiros cinematográficos e, com eles, aprendi a dar vida aos personagens através de suas ações.
E quanto à poesia, acredito que seja o mesmo.
Ao escrever prosa, queira ou não, às vezes até inconscientemente, busco formular frases e parágrafos atentos ao ritmo e à beleza poética das imagens.
Nem sempre dá certo, mas, pelo menos, tento.
Victor Hugo Cavalcante: No conto final, você menciona que “todas as histórias já foram contadas, muda só o jeito de as contar”, mas que caminhos ainda não explorados na literatura contemporânea você acredita que podem transformar a experiência do leitor?
Na literatura contemporânea, todos os caminhos já foram explorados.
Com o advento da modernidade, as formas literárias e poéticas tiveram seus limites rompidos.
Então, sobra para o autor que queira transformar a experiência do leitor, a sua própria criatividade e a capacidade de encontrar a melhor maneira de contar sua história.
E a história será bastante original se o autor conseguir transformar uma situação particular em universal, condição para a boa literatura.
Não podemos esquecer que o ser humano tem características internas, no interior de sua psique, que não mudam.
O que muda é a condição histórica do momento em que ele está vivendo.
O escritor, então, tem que captar essa historicidade e, a partir dela, tratar das questões universais.
Shakespeare é um bom exemplo.