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Livro questiona o significado de ser mulher

Em “Retratos de Mulher”, Jeanine Geraldo reúne 19 contos que expõem violências cotidianas, silenciamentos e o horror real da experiência feminina.

Mockup com capa do livro.

Centrado na inquietação sobre a figura da mulher, “Retratos de Mulher”, quarto livro publicado pela doutora em Literatura, professora e escritora Jeanine Geraldo e primeiro lançado pela editora Urutau, traz um amálgama de textos que têm algo em comum: o grande horror da vida não está no outro mundo, mas neste.

Os contos de “Retratos de Mulher” são únicos e a maioria, com poucas exceções, tem em seu cerne um ponto nevrálgico em comum: a experiência de ser mulher num mundo onde a violência, o abuso e o silenciamento são rotina.

O texto que abre o livro, intitulado “A enforcada”, traz a história de uma garotinha que, como presente de aniversário, pede que o pai, vigia noturno de uma fábrica, a leve para conhecer seu trabalho.

Lá, ela encontra o “tio” que a diverte com histórias de terror, em especial a de uma mulher que teria se enforcado em um dos galpões.

O cenário noturno e os espaços vazios trazem uma narrativa de terror que não está ligada ao sobrenatural.

Narrado do ponto de vista da menina, o conto retrata a experiência dilacerante do abuso infantil, com um desfecho dos mais surpreendentes.

“Acho que minhas experiências pessoais e observações da sociedade não só influenciam as histórias: é a partir delas que as histórias nascem. De alguma forma, mesmo que a matéria do conto não parta de uma experiência autobiográfica, a forma como narro está fundamentada na minha maneira de experienciar o mundo”, revela Jeanine Geraldo.

“Lençóis Manchados de Vinho” traz um texto centrado no tema da sexualidade após a maternidade.

Ao retratar a perda de identidade vivenciada pela narradora, o conto dessacraliza o tornar-se mãe:

“Eu me vi refém daquele ser que crescia, respirava e se alimentava de mim. Tentava esconder que a cada semana eu morria um pouco para que esse outro vivesse. Quando estivesse pronto para vir ao mundo, eu teria partido”, traz o texto.

Jeanine Geraldo também nos oferece narrativas cujas temáticas atravessam outras questões, como vida e morte, medo e mar, com destaque para contos metalinguísticos que nos fazem refletir sobre o próprio gênero literário, como em “Quem tem medo do escuro?”, em que a narradora tenta lembrar de um conto que lhe foi contado há muito tempo sobre um personagem perseguido pela escuridão.

“Acredito que o verdadeiro objeto da arte seja aquela emoção que se acende no peito do leitor, a experiência humana profundamente retratada ali. E é esse tipo de emoção que desejo que meu leitor e minha leitora acessem. De maneira bastante ambiciosa talvez, eu gostaria que cada história fosse também uma oportunidade de olhar para dentro”, conta Jeanine.

Por fim, o conto que dá nome ao livro encerra a coletânea numa inversão de expectativa.

Aqui, a mulher retratada é vítima, mas também algoz.

Vítima de uma sociedade que a silencia e oprime e que, por isso mesmo, produz a opressora: uma mulher que se aproveita dos mecanismos de proteção legal como vingança pessoal.

“Retratos de Mulher” se debruça sobre o “irreal mais real que existe”.

As violências diárias que não têm nome, os fantasmas de infância que acompanham mulheres diuturnamente, os sonhos negados e os corpos dilacerados por dentro.

Aqui, Jeanine Geraldo mostra não só domínio da linguagem, seu instrumento mor de trabalho, mas também certo grau de diversão através das palavras.

Elogios ao livro

Entre os elogios pelo livro estão as falas de Luiz Antônio Ribeiro, editor do Jornal Nota, que diz:

“A autora se insere no movimento que vem sendo chamado de ‘boom’ da literatura latino-americana feminina voltada para temas como o terror, o horror e o insólito, que tem como expoentes as argentinas Samanta Schweblin e Mariana Enriquez e que também tem laços no Brasil, como as autoras Irka Barrios, Verena Cavalcanti, Paula Febbe, entre outras”.

Quem também elogiou o trabalho da autora foi a também escritora Giovana Madalosso, que afirma que “Jeanine sabe criar imagens bonitas e fortes, dessas que seguem ecoando na memória do leitor”.

Sobre a autora

Crédito da foto: Divulgação.

Jeanine Geraldo é escritora e professora no Instituto Federal do Paraná.

Pós-doutoranda em Letras pela UFPR, é pesquisadora na área de Literatura com ênfase em crítica literária, e vive tentando conciliar a vida acadêmica, os treinos de jiu-jitsu e a urgência da escrita.

É autora de “O animal que me tornei” (2018), “As folhas vermelhas do outono” (2020), premiado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná (Edital 003/2020 — Licenciamento de Obras Digitais), “Alcateia” (2022) e “Retratos de Mulher” (2025), 2º lugar no I Prêmio Escritoras Brasileiras na categoria narrativas curtas.

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