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Bate-papo com Dr.ª Elaine Di Sarno

Recentemente a internet virou do avesso após uma matéria sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade ao ar na TV Globo, e nós conversamos com a psicóloga Dr.ª Elaine Di Sarno para compreender mais sobre este transtorno.

Foto da psicóloga Elaine Di Sarno.

Crédito: Carlos Alkmin

Recentemente uma matéria jornalística do programa dominical da TV Globo, Fantástico deu o que falar quando mostrou casos de pessoas com uma condição psiquiátrica severa e rara: o Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI).

E nós fomos saber um pouco mais deste transtorno com a Dr.ª Elaine Di Sarno, psicóloga e neuropsicóloga formada pela USP e mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Elaine ainda é especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e em avaliação neuropsicológica pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, psicóloga pesquisadora do Programa de Esquizofrenia (PROJESQ) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, e presta atendimentos individuais e familiares utilizando a abordagem cognitivo-comportamental.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro gostaria de agradecer por mais uma vez estar nos esclarecendo um assunto relacionado à área da saúde mental, gostaria de começar perguntando: O que é Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI)?

Dr.ª Elaine Di Sarno: O Transtorno Dissociativo de Identidade, anteriormente chamado Transtorno de Personalidades Múltiplas, é um tipo de transtorno dissociativo caracterizado por dois estados de personalidade (também chamados alter egos ou estados do eu ou identidades) que se alternam.

Victor Hugo Cavalcante: Qual a origem e como se identifica se uma pessoa sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade?

A pessoa pode apresentar duas ou mais identidades que podem se manifestar na forma de condutas distintas ou com diferenças muito sutis, às vezes imperceptíveis a quem vê de fora.

O grau que se observa pode variar, ficando mais evidente quando a pessoa está sob estresse.

Geralmente ocorrem em pessoas que sofreram algum trauma ou estresse grave na infância, como abusos sexuais ou psíquicos.

Victor Hugo Cavalcante: Como é feito o tratamento de TDI?

O tratamento é geralmente feito com Terapia Cognitivo Comportamental.

Em pacientes com alto risco ou com ideação suicida usa-se também a Terapia Dialética Comportamental.

O tratamento às vezes combinada com farmacoterapia para comorbidades por depressão e/ou ansiedade.

Victor Hugo Cavalcante: O que diferencia TDI de outros transtornos mentais como esquizofrenia ou transtorno bipolar?

O paciente com esquizofrenia não apresenta personalidades múltiplas.

Em um momento de crise pode haver comportamentos e pensamentos diferentes, mas não dissociados.

Pacientes com Transtorno Dissociativo de Identidade podem ter alucinações visuais, táteis, olfativas e gustativas.

Dessa forma, os pacientes podem ser diagnosticados erroneamente.

Mas esses sintomas alucinatórios diferem das alucinações típicas da esquizofrenia.

Pacientes com Transtorno Dissociativo de Identidade sentem esses sintomas como se viessem de uma identidade alternativa (p. ex., como se outra pessoa quisesse chorar com seus próprios olhos, ouvir a voz de uma identidade alternativa criticando-os).

O Transtorno Bipolar está relacionado a alterações de humor, no Transtorno Dissociativo de Identidade existe a presença de múltiplas personalidades.

Victor Hugo Cavalcante: Existe atualmente algum dado estatístico de quantas pessoas no mundo e no país sofrem de TDI?

Em torno de 1,5% da população mundial.

Victor Hugo Cavalcante: No TDI sempre vai existir a personalidade real, a personalidade protetora e a personalidade mais “fraca” ou infantilizada? Por quê?

Nem sempre.

Em TDI a perda de identidade não é devidamente controlada pelo indivíduo em situações de estresse ou diante de situações traumáticas vividas pela pessoa ao longo da vida.

Victor Hugo Cavalcante: A medicina já identificou casos em que uma personalidade toma conhecimento de outra que ‘coabita’ a mesma pessoa, neste caso como fazer para estas identidades se preservarem e preservarem o corpo de quem sofre este transtorno?

A pessoa pode ter amnésia em relação a dados pessoais importantes e eventos traumáticos, ou seja, “as personalidades não se conhecem e não se relacionam entre si”.

Elas se manifestam com condutas diferentes e às vezes as diferenças podem ser muito sutis para quem convive com a pessoa.

As diferentes identidades muitas vezes não são tão evidentes para os observadores.

Victor Hugo Cavalcante: Fragmentado é uma obra cinematográfica de 2016 que retrata um caso grave de Transtorno Dissociativo de Identidade, mas, na realidade, todo caso de TDI vai ser violento como no filme?

O filme possui embasamento científico, mas a violência e agressividade não podem ser generalizadas, em razão do estigma e preconceito.

Cada caso é um caso, as pessoas diferem e possuem histórias de vida diferentes.

Victor Hugo Cavalcante: O TDI é muito usado no cinema, literatura e TV, mas é importante procurar informações fora do âmbito artístico, procurando desmistificar alguns estereótipos, mas afinal, quais são estes estereótipos?

A falta de conhecimento específico pode gerar ou aumentar o estigma e o preconceito com relação ao transtorno.

Victor Hugo Cavalcante: Na sua visão enquanto psicóloga, o quanto que a reportagem do Fantástico sobre o caso da jovem com 18 personalidades diferentes, consequência do Transtorno Dissociativo de Identidade, acertou em como falar e desmitificar sobre esse assunto?

O principal antídoto para a psicofobia é fornecer informações corretas a fim de aumentar o conhecimento sobre o assunto.

A falta de conhecimento e o estigma fazem com que a pessoa deixe de procurar ajuda ou tratamento adequado.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda sobre a matéria no programa da TV Globo, uma polêmica que está rolando nas redes sociais é a veracidade do transtorno nas pessoas apresentadas, em sua opinião como profissional na área mental, o quanto a matéria pôde ter influenciado nessa opinião?

Como disse anteriormente, a falta de conhecimento gera preconceito e estigma com relação ao TDI, como também com outros transtornos, como esquizofrenia, depressão, ansiedade, etc.

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