Escrito por Victor Hugo Cavalcante, editor e jornalista do site Jornal Folk (Crédito: Arquivo).
Algumas formas de terror não chegam gritando.
Elas permanecem acesas mediante luzes que não se apagam, corredores que não terminam, anúncios que se repetem como mantras e um espaço que nunca fecha porque não admite pausas.
Sombras de Aurora: O shopping que nunca dorme nasce dessa imagem, que surgiu primeiro como um sonho, mas poderia facilmente ter vindo de qualquer grande centro urbano contemporâneo.
No sonho que deu origem ao livro, não havia monstros evidentes.
O que existia era algo mais perturbador: a normalidade absoluta de um mundo que funciona sem descanso.
E é justamente aí que o horror começa.
Quando o cenário vira sistema
Em Sombras de Aurora, o shopping não é apenas um local onde a história acontece.
Ele é um organismo, um corpo que respira consumo, produtividade, repetição e um espaço que nunca dorme porque não permite que ninguém durma, nem vivos, nem mortos.
Essa escolha simbólica não é gratuita.
O shopping representa uma lógica maior: a de um sistema que transforma tempo de vida em mercadoria, presença em ausência justificável e cansaço em virtude moral.
Trabalhar mais é sinal de caráter, enquanto descansar é quase um desvio e estar sempre disponível se torna prova de valor.
O terror do livro não nasce do sobrenatural em si, mas do que ele simboliza, aqui o sobrenatural apenas dá forma ao que já aceitamos como normal.
Pessoas presas às próprias escolhas
A narrativa acompanha um grupo de “novos funcionários” que passa a trabalhar no Shopping Aurora, um lugar aparentemente comum, marcado por uma tragédia esquecida.
Gradualmente, eles descobrem que estão presos a um ciclo eterno, consequência direta das escolhas que fizeram em vida.
Não há punição arbitrária, tampouco juízo divino explícito, mas há consequências.
No universo do livro, ninguém morre por acaso, mas por hábito.
Por priorizar sempre mais um turno, mais uma meta, mais uma vitrine.
O castigo não vem como surpresa, mas como continuidade, o que muda não é a lógica, é apenas a impossibilidade de sair dela.
Terror psicológico como espelho social
Classificado como terror psicológico, Sombras de Aurora não aposta em sustos fáceis.
Seu desconforto é progressivo, claustrofóbico, silencioso.
O leitor avança pelos corredores do shopping da mesma forma que os personagens: com a sensação de que algo está errado, mesmo quando tudo parece funcionar perfeitamente.
Esse tipo de terror exige ritmo, repetição calculada e silêncio.
Exige saber quando avançar e quando deixar o leitor preso no mesmo lugar, mas exige também algo mais difícil: honestidade emocional.
Escrever sobre pessoas que morrem por priorizarem trabalho, consumo e rotina é, inevitavelmente, escrever contra uma lógica que nós mesmos reproduzimos.
Em vários momentos, o livro funciona como espelho, e eles raramente são confortáveis.
Capitalismo, culpa e a promessa do “só mais um pouco”
Talvez o elemento mais perturbador do livro seja a familiaridade de sua premissa.
A ideia de que sempre dá para “ficar mais um pouco”:
Mais um turno, mais um mês, mais um sacrifício temporário que, um dia, será recompensado.
Essa promessa, central na lógica do capitalismo contemporâneo, raramente se cumpre.
O futuro melhor é constantemente adiado, enquanto o presente é consumido, o descanso fica para depois e a vida, também.
Em Sombras de Aurora, essa dinâmica não termina com a morte.
Ela apenas se torna explícita.
O horror não está em trabalhar para sempre, mas em perceber que já se estava fazendo isso.
O verdadeiro terror
Ao final, fica uma sensação incômoda, porém honesta: a de que o verdadeiro terror não está no sobrenatural, mas na naturalização da ausência, do cansaço constante e da ideia de que a vida pode sempre esperar.
Sombras de Aurora não aponta vilões individuais ou acusa personagens específicos, o que ele expõe é um sistema inteiro que transforma pessoas em engrenagens, mesmo depois do fim.
Talvez seu maior mérito seja esse: lembrar que ainda existem saídas.
Que algumas portas continuam abertas, mas a questão é saber se teremos coragem de atravessá-las antes que o turno termine.
Porque, no fim, a pergunta que o livro deixa não é literária, é profundamente cotidiana:
Você morreria por mais um turno?
Sobre o autor
Victor Hugo Cavalcante é formado em Jornalismo pela UNIFEV — Centro Universitário de Votuporanga.
Como escritor, desenvolve obras marcadas pela atenção à experiência humana, à introspecção e ao simbolismo, transitando entre poesia, ficção, humor, drama psicológico e jornalismo social.
A literatura de Victor Hugo Cavalcante combina densidade psicológica, simbolismo e estética poética, convidando o leitor a refletir sobre identidade, relações humanas e autoconhecimento.
Cada obra revela diferentes formas de enfrentamento de traumas e pressões sociais, sempre mantendo o olhar atento às nuances da experiência humana.
Continue navegando pelo Jornal Folk e descubra conteúdos que inspiram, informam e conectam diferentes realidades.






