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Mães da ballroom: Acolhimento repleto de história e afeto

Jô Gomes, Aurora Abloh Zion e Dr.ᵃ Elaine Di Sarno refletem sobre o papel da cultura ballroom como espaços de afeto e reconstrução familiar LGBTQIAPN+.

Foto de membros de uma das Casas de Ballroom.

Na cultura ballroom, as figuras maternas têm um papel central, não apenas no âmbito da arte e da performance, mas como pilares de acolhimento, afeto e resistência.

Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, essas “mães” representam uma alternativa vital às famílias biológicas, muitas vezes rejeitadoras.

Elas oferecem apoio, carinho e uma rede de proteção que, em muitos casos, não é encontrada fora desse espaço.

São laços formados não pela biologia, mas pela escolha mútua de cuidados e solidariedade.

Este texto celebra a força, a história e a importância dessas famílias escolhidas, que florescem na Ballroom.

A origem das Houses: resistência e afeto em tempos de exclusão

Pesquisadora e dançarina da cultura ballroom, Jô Gomes fala sobre a importância histórica das Houses como espaços de resistência e acolhimento para pessoas negras e LGBTQIAPN+. Crédito: Gabi Nery.

A cultura ballroom tem raízes profundas na resistência negra e LGBTQIAPN+ nos Estados Unidos.

Seu ponto de partida remonta ao Harlem Renaissance, período em que pessoas negras, excluídas dos espaços artísticos e culturais brancos, criaram locais próprios de encontro, afeto e expressão.

Segundo a pesquisadora e dançarina Jô Gomes, esses salões de baile eram mais que festas: eram espaços de sobrevivência simbólica.

“Ali, as pessoas podiam ser quem eram, dançarinos, poetas, artistas, drags, longe da repressão da sociedade branca e racista”, afirma.

Um dos nomes mais importantes desse período é William Dorsey Swann, o primeiro homem a se autodeclarar Drag Queen, que enfrentava constantes invasões policiais nos concursos de beleza drag da época.

Para Jô, ele simboliza a força de um povo que resistia à criminalização de sua cultura.

O ancestral direto da ballroom contemporânea são justamente esses concursos, que, com o tempo, passaram a ser ocupados por pessoas brancas.

O padrão de beleza eurocêntrico começou então a reinar, relegando ao esquecimento os traços e expressões negras.

Foi nesse cenário que Crystal LaBeija, mulher trans e negra, rompeu com o modelo vigente e fundou a primeira House, a House of LaBeija, após denunciar o racismo em competições, como mostrado no documentário The Queen (1968).

“A Ballroom já nasce negra, trans, periférica, LGBTQIAPN+”, destaca Jô Gomes.

Mais que uma reação estética, esse movimento foi um gesto político.

As Houses passaram a acolher pessoas expulsas de suas famílias, criando um novo modelo de comunidade: as famílias escolhidas.

“As mães e pais da ballroom levavam essas pessoas para suas casas, ensinavam ofícios, ofereciam apoio e construíam coletivamente uma nova ideia de lar”, explica Jô.

A House era, e continua sendo, um espaço de cuidado integral.

Hoje, a Ballroom continua sendo um espaço de acolhimento simbólico e político, principalmente no Brasil, onde o movimento se expande entre pessoas negras, LGBTQIA+ e, cada vez mais, indígenas.

“As famílias da Ballroom não são trupes artísticas. São lares, criados para amar, ensinar e resistir em conjunto”, conclui Jô Gomes.

Famílias que curam: o papel das Houses na saúde emocional de jovens LGBTQIAPN+

Psicóloga e neuropsicóloga, Dr.ᵃ Elaine Di Sarno explica como o abandono familiar afeta a autoestima de jovens LGBTQIAPN+ e destaca o papel das famílias afetivas no processo de cura emocional. Crédito: Crédito: Carlos Alkmin.

Para além das performances e categorias dos bailes, as Houses cumprem um papel crucial na saúde emocional da juventude LGBTQIAPN+.

Isso porque muitas pessoas da comunidade vivenciam o abandono familiar logo na adolescência, quando expressam sua identidade de gênero ou orientação sexual.

Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Dr.ᵃ Elaine Di Sarno, esse tipo de rejeição compromete diretamente o desenvolvimento da autoestima, um dos pilares da saúde mental.

“A vivência de uma relação calorosa, íntima e contínua com uma figura materna, ou alguém que exerça esse papel, é essencial para o equilíbrio emocional. Quando a criança ou adolescente é privada desse vínculo, sofre impactos prejudiciais, como a baixa autoestima”.

É nesse vazio que as famílias afetivas, como as Houses da Ballroom, surgem como formas legítimas de cuidado.

“Elas oferecem suporte emocional, reconhecem conquistas e valorizam o indivíduo, ajudando na construção da confiança e na percepção positiva de si”, explica a Mestre em Ciências pela USP e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC).

Mais do que um grupo de convivência, essas estruturas funcionam como redes de cuidado coletivo, capazes de modelar comportamentos saudáveis e acolher jovens negligenciados pela família de origem.

Para a Dr.ᵃ Elaine, as Houses se configuram como uma alternativa real à família tradicional, ao proporcionarem ambientes afetivos, protetivos e fortalecedores.

A potência do afeto: o significado de ser filha e Mãe dentro da Ballroom

Artista e Mother da Casa de Virgil Abloh, Aurora Abloh Zion compartilha sua experiência de ser acolhida e, depois, acolher outros dentro das Houses da cultura ballroom. Crédito: Juliana Dourado.

Como vimos, a cultura Ballroom é também uma história de reconstrução afetiva e fortalecimento coletivo.

Aurora Abloh Zion, hoje reconhecida como Mother da Casa de Abloh e integrante da renomada Iconic House of Zion, já viveu ambos os lados da experiência: foi acolhida como filha e hoje é referência como Mãe.

Para ela, as Houses não são apenas espaços de performance artística, são lares.

“Na maioria das vezes, quando a gente se ‘assume’ LGBTQIAPN+, rola uma rejeição da família, infelizmente. E aí entra o papel das Houses: acolher, cuidar e mostrar que a família também pode ser quem escolhe estar do seu lado, te apoiar e te amar”, conta.

Aurora já foi filha da House of Hands Up, primeira house brasileira, e da House of Mamba Negra, onde viveu trocas profundas, foi fortalecida e aprendeu os fundamentos que hoje transmite como liderança.

“Mesmo sendo Mãe, sigo aprendendo e vivendo a experiência de ser filha também”, destaca.

Carregar o nome de uma House, para ela, é mais do que título: é honrar um legado, representar uma linhagem de resistência, arte e cuidado mútuo.

A estrutura da House reflete uma alternativa real à família tradicional.

Mães, Pais, Tias e Tios que compartilham responsabilidades e afeto e o apoio emocional, segundo Aurora, é a base de tudo.

“As Houses não são nada superficiais. São famílias que a gente escolhe e que escolhem a gente. Laços que duram a vida toda”.

Ao ser acolhida por essas famílias escolhidas, Aurora teve a vida transformada.

“Redescobri minha autoestima, fui acolhida nos meus momentos de fragilidade, troquei experiências com gente que vive coisas parecidas e aprendi a me posicionar como artista”, afirma.

Para Aurora, ser Mãe, hoje, é retribuir esse acolhimento, criando um espaço onde cada pessoa possa ser vista, celebrada e respeitada.

Por isso, neste maio, ao celebrarmos as mães em suas múltiplas expressões, também homenageamos as mães de House, e todas as que, com coragem e ternura, acolhem, ensinam e transformam vidas.

Esse texto teve contribuição de Aryane Sanchez e Cristiane Sampaio.

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