Na cultura ballroom, as figuras maternas têm um papel central, não apenas no âmbito da arte e da performance, mas como pilares de acolhimento, afeto e resistência.
Para muitas pessoas LGBTQIAPN+, essas “mães” representam uma alternativa vital às famílias biológicas, muitas vezes rejeitadoras.
Elas oferecem apoio, carinho e uma rede de proteção que, em muitos casos, não é encontrada fora desse espaço.
São laços formados não pela biologia, mas pela escolha mútua de cuidados e solidariedade.
Este texto celebra a força, a história e a importância dessas famílias escolhidas, que florescem na Ballroom.
A origem das Houses: resistência e afeto em tempos de exclusão

A cultura ballroom tem raízes profundas na resistência negra e LGBTQIAPN+ nos Estados Unidos.
Seu ponto de partida remonta ao Harlem Renaissance, período em que pessoas negras, excluídas dos espaços artísticos e culturais brancos, criaram locais próprios de encontro, afeto e expressão.
Segundo a pesquisadora e dançarina Jô Gomes, esses salões de baile eram mais que festas: eram espaços de sobrevivência simbólica.
“Ali, as pessoas podiam ser quem eram, dançarinos, poetas, artistas, drags, longe da repressão da sociedade branca e racista”, afirma.
Um dos nomes mais importantes desse período é William Dorsey Swann, o primeiro homem a se autodeclarar Drag Queen, que enfrentava constantes invasões policiais nos concursos de beleza drag da época.
Para Jô, ele simboliza a força de um povo que resistia à criminalização de sua cultura.
O ancestral direto da ballroom contemporânea são justamente esses concursos, que, com o tempo, passaram a ser ocupados por pessoas brancas.
O padrão de beleza eurocêntrico começou então a reinar, relegando ao esquecimento os traços e expressões negras.
Foi nesse cenário que Crystal LaBeija, mulher trans e negra, rompeu com o modelo vigente e fundou a primeira House, a House of LaBeija, após denunciar o racismo em competições, como mostrado no documentário The Queen (1968).
“A Ballroom já nasce negra, trans, periférica, LGBTQIAPN+”, destaca Jô Gomes.
Mais que uma reação estética, esse movimento foi um gesto político.
As Houses passaram a acolher pessoas expulsas de suas famílias, criando um novo modelo de comunidade: as famílias escolhidas.
“As mães e pais da ballroom levavam essas pessoas para suas casas, ensinavam ofícios, ofereciam apoio e construíam coletivamente uma nova ideia de lar”, explica Jô.
A House era, e continua sendo, um espaço de cuidado integral.
Hoje, a Ballroom continua sendo um espaço de acolhimento simbólico e político, principalmente no Brasil, onde o movimento se expande entre pessoas negras, LGBTQIA+ e, cada vez mais, indígenas.
“As famílias da Ballroom não são trupes artísticas. São lares, criados para amar, ensinar e resistir em conjunto”, conclui Jô Gomes.
Famílias que curam: o papel das Houses na saúde emocional de jovens LGBTQIAPN+

Para além das performances e categorias dos bailes, as Houses cumprem um papel crucial na saúde emocional da juventude LGBTQIAPN+.
Isso porque muitas pessoas da comunidade vivenciam o abandono familiar logo na adolescência, quando expressam sua identidade de gênero ou orientação sexual.
Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Dr.ᵃ Elaine Di Sarno, esse tipo de rejeição compromete diretamente o desenvolvimento da autoestima, um dos pilares da saúde mental.
“A vivência de uma relação calorosa, íntima e contínua com uma figura materna, ou alguém que exerça esse papel, é essencial para o equilíbrio emocional. Quando a criança ou adolescente é privada desse vínculo, sofre impactos prejudiciais, como a baixa autoestima”.
É nesse vazio que as famílias afetivas, como as Houses da Ballroom, surgem como formas legítimas de cuidado.
“Elas oferecem suporte emocional, reconhecem conquistas e valorizam o indivíduo, ajudando na construção da confiança e na percepção positiva de si”, explica a Mestre em Ciências pela USP e especialista em Terapia Cognitivo Comportamental (TCC).
Mais do que um grupo de convivência, essas estruturas funcionam como redes de cuidado coletivo, capazes de modelar comportamentos saudáveis e acolher jovens negligenciados pela família de origem.
Para a Dr.ᵃ Elaine, as Houses se configuram como uma alternativa real à família tradicional, ao proporcionarem ambientes afetivos, protetivos e fortalecedores.
A potência do afeto: o significado de ser filha e Mãe dentro da Ballroom

Como vimos, a cultura Ballroom é também uma história de reconstrução afetiva e fortalecimento coletivo.
Aurora Abloh Zion, hoje reconhecida como Mother da Casa de Abloh e integrante da renomada Iconic House of Zion, já viveu ambos os lados da experiência: foi acolhida como filha e hoje é referência como Mãe.
Para ela, as Houses não são apenas espaços de performance artística, são lares.
“Na maioria das vezes, quando a gente se ‘assume’ LGBTQIAPN+, rola uma rejeição da família, infelizmente. E aí entra o papel das Houses: acolher, cuidar e mostrar que a família também pode ser quem escolhe estar do seu lado, te apoiar e te amar”, conta.
Aurora já foi filha da House of Hands Up, primeira house brasileira, e da House of Mamba Negra, onde viveu trocas profundas, foi fortalecida e aprendeu os fundamentos que hoje transmite como liderança.
“Mesmo sendo Mãe, sigo aprendendo e vivendo a experiência de ser filha também”, destaca.
Carregar o nome de uma House, para ela, é mais do que título: é honrar um legado, representar uma linhagem de resistência, arte e cuidado mútuo.
A estrutura da House reflete uma alternativa real à família tradicional.
Há Mães, Pais, Tias e Tios que compartilham responsabilidades e afeto e o apoio emocional, segundo Aurora, é a base de tudo.
“As Houses não são nada superficiais. São famílias que a gente escolhe e que escolhem a gente. Laços que duram a vida toda”.
Ao ser acolhida por essas famílias escolhidas, Aurora teve a vida transformada.
“Redescobri minha autoestima, fui acolhida nos meus momentos de fragilidade, troquei experiências com gente que vive coisas parecidas e aprendi a me posicionar como artista”, afirma.
Para Aurora, ser Mãe, hoje, é retribuir esse acolhimento, criando um espaço onde cada pessoa possa ser vista, celebrada e respeitada.
Por isso, neste maio, ao celebrarmos as mães em suas múltiplas expressões, também homenageamos as mães de House, e todas as que, com coragem e ternura, acolhem, ensinam e transformam vidas.
Esse texto teve contribuição de Aryane Sanchez e Cristiane Sampaio.